Não se fala em outra coisa atualmente. Se você está no mercado de trabalho, seja CEO ou motoboy, já ouviu (até a exaustão, provavelmente) falar na “busca pela excelência” que o mundo corporativo elegeu o conceito como sua vedete, e, em todas as áreas tem falado, incentivado e motivado (muito) em buscar a excelência.

Nesse artigo, ninguém vai perder tempo explicando o que é excelência, e menos ainda o que ACHAM que é. Como já dissemos, provavelmente você ouve essa palavra 3 vezes ao dia.  Por isso mesmo, você sabe que excelência não é perfeição. Sabe que o conceito relaciona-se muito mais com ‘buscar melhorar-se a cada dia nas pequenas coisas’ do que em ser um excepcional-infalível-de-alto-desempenho.

Talvez você tenha até ouvido aquela história de que foi o filósofo Aristóteles quem primeiro falou sobre a excelência. Bom, esse em particular é um mito, daqueles clássicos, nos quais se colocam palavras na boca de alguém importante pra dar mais credibilidade a elas. Mas, de fato, o conceito de excelência não é nem aristotélico e nem mesmo novo. Novo talvez é seja a nossa maneira atual de buscar a excelência. Na verdade, quando Aristóteles nasceu, o conceito de excelência (que em grego clássico se diz “Areté”), já era coisa muito difundida, e inclusive era uma das bases do esforço civilizatório dos gregos e da formação de seus cidadãos. Mas podemos dizer que quem realmente colocou os pingos nos “is” da coisa foi Sócrates, o semi mítico mestre de Platão, que afirmava algo muito interessante sobre a virtude, e, por consequência, da excelência. O filósofo afirmava que a virtude era tão somente “fazer aquilo ao que você se destina”. Algo muito mais ligado à sua finalidade como ser humano que com a sua ocupação, que é somente parte do que você é, afinal.

De qualquer maneira, buscar a excelência não é uma ideia nova. Antes dos gregos, aliás, os hindus já se dedicavam ao que os japoneses (fortemente influenciados pelo pensamento budista vindo da Índia) chamaram de Kaizen. Que pode aliás ser traduzido (de forma um tanto tendenciosa) como “melhoria contínua”. 

Na realidade, a essa altura do texto, você já deve ter percebido nossa intenção. Mas recapitulemos: O conceito de excelência é muito, muito antigo. Se aplicava à vida em geral, e não apenas ao paradigma dos “negócios” (e por vezes era até diametralmente oposto a ideia dos “fazedores de negócios”, Diógenes que o diga). Neste aspecto a excelência tinha relação com o estilo de vida, basta lembrar o estilo de vida dos samurais ou dos monges zen-budistas e veremos traços dessa excelência ancestral. Além disso, nos lugares onde mais prosperou o ideal de excelência, como no Japão e a Suiça, acabou por tornar-se parte integrante da cultura e do cotidiano, não pela via da busca de alguma satisfação material, ou melhoria de um processo “mundano”, mas tendo inclusive fortes raízes espirituais.

De lá pra cá, a ideia de que se pode atingir um cume tão alto que seja suficientemente distante do lugar comum do erro, da falha e da imperfeição tem se mostrado extremamente sedutora, tanto que caiu nas graças do ocidente, e tomou formas e desdobrando que se diferem do original. Basta lembrarmos por exemplo do termo criado por Tony Robbins, o CANI: Constant and Never Endind Improvement.

Um nome pomposo pra algo que nasceu pra ser simples. E, apesar de simplicidade ser a especialidade dos budistas, não é a eles (que são culturalmente distantes de nós e um tanto incompreensíveis do ponto de vista de quem trabalha das 9:00 às 18:00) que vamos recorrer para falar o que você precisa começar a saber sobre a excelência. Aliás, esse é um bom momento para um lembrete: saber sobre a excelência pode ser uma faca de dois gumes, e é melhor aprender antes a SER excelente do que apenas buscar TER excelência. Pois a excelência tem mais relação na busca de ‘Ser o melhor que se pode Ser’ do que ‘Ser o melhor’ ou Ser mais do que o outro’. Mas isso de “Ser melhor x ser excelente” você vai entender melhor no final dessa série de artigos. Agora, neste, vamos apresentar a vocês uma “deusa”: A tal Aretê.

Deusa? Bom, às vezes. Aretê era ocasionalmente personificada como uma deusa, irmã da Harmonia e filha da Justiça (que os gregos chamavam Praxidike). Mais que isso, Aretê e Harmonia eram conhecidas como Praxidikai, ou seja as executoras da Justiça. Aretê aparece em um das célebres jornadas do herói (tal já citamos aqui no blog), como deusa. É ela quem oferece a Hércules a opção – aceita pelo filho de Zeus – de viver uma vida difícil, mas gloriosa, ao invés de se cercar de prazeres e ser esquecido. Isso também diz muito sobre a excelência: Ela não é um parâmetro, nem uma finalidade. É, isso sim, um esforço contínuo e sem garantias.

Outra coincidência em relação à “divindade” de Aretê está na forma como a vemos, e consequentemente, não por acaso, este artigo tem o título que tem. Aretê enquanto conceito é ligada à noção de cumprimento do propósito ou da função. A excelência coincide com a realização da própria essência, e portanto a noção se estende a todos os seres vivos (e sistemas, máquinas, projetos… Enfim, a tudo quanto possa EXISTIR). No plano objetivo, excelência é a realização da própria essência. Na verdade, era por isso que os gregos usavam o termo pra tudo, mas tudo mesmo: desde a descrição de um objeto utilitário até para indicar as qualidades de um animal, de um cidadão ou de um herói ou deus. Na antiga Grécia, se você visse uma pedra que parecesse boa para colocar no estilingue, essa pedra estaria cheia de Aretê. No entanto, em todos os casos a Aretê de cada coisa envolvia valores diferentes para as diferentes finalidades.

Eu poderia terminar o texto aqui, mas vou esticar um pouco mais, pra que todos saibam sobre o que refletir enquanto esperam a próxima parte desta série sobre excelência. Por isso, vou encerrar com uma pergunta: Se a excelência é tão variável, e se ela tem diferentes aplicações para diferentes aspectos, como pode haver um conceito “geral” ou “holístico” de excelência? Como se pode atingi-la em conjunto, ou mesmo sozinho, quando se tem tantas variáveis envolvidas (cada uma das quais buscando, por natureza, como vimos, a excelência de sua essência)?

Tenho certeza de que vocês vão se divertir buscando as respostas. Talvez elas venham no próximo artigo, ou talvez nem existam. Mas uma coisa eu posso garantir: depois de ler toda a série, você vai deixar de saber muita coisa.