Muitos pensam que “gestão ética” seria uma gestão mais humana, mais humanista ou mais humanitária- pode até ser- mas, certamente, não é só isso. Também não podemos negar que gestão e ética são ciências humanas que pertencem ao mesmo campo de saberes da antropologia, filosofia e educação. Porém, apesar de ser das áreas das humanidades, a prática do gerenciamento está cada vez mais próxima do campo das ciências exatas.

A gestão, enquanto atividade essencialmente técnica, leva em conta questões objetivas e tem nessa objetividade a razão para seu sucesso, quando bem aplicado. No entanto, a falta de familiaridade dos gestores com questões subjetivas, entre elas as implicações éticas de toda sorte, é também uma das causas para o gerenciamento de indicadores éticos voltar a ser estudado hoje em dia e passar a fazer parte da pauta das reuniões corporativas.

Dentro do atual paradigma, como deixamos claro em nosso artigo anterior: O QUE É ÉTICA, EMPRESARIAL (?), qualquer gestão deve possuir responsabilidade ética. Empresas, afinal, são feitas de pessoas, e dentro do processo empresarial, qualquer um deve ser um promotor da ética.

De modo que a Gestão, no mundo contemporâneo, possui duplo caráter, onde a Gestão Técnica se completa com a Gestão Ética. Esta natureza dupla não é uma fraqueza mais uma fortaleza, afinal, como identificar e mensurar indicadores, indispensáveis em qualquer processo gerencial, quando o que(m) devemos medir pertence à categoria das subjetividades?

Para responder a esse questionamento, surgiram, após intenso trabalho de pesquisa e massivo intercâmbio de informações interdisciplinares, os indicadores para uma gestão ética e seus respectivos modelos de gerenciamento dos resultados.

O gerenciamento de indicadores éticos no mundo corporativo se tornou possível através da observação e compreensão do que é um comportamento ético do ponto de vista empresarial e consolidou conceitos que traduzem esse comportamento em ações concretas na busca pela ética empresarial em toda sua amplitude, ou seja, dentro e fora das organizações.

A HISTÓRIA NÃO-CONTADA DO GERENCIAMENTO DE INDICADORES ÉTICOS

Nos EUA, nos anos 40 já se falava de “auditoria social”, primeiro com Kreps depois Boweis (criador do termo Responsabilidade Social). Boweis revigorou a ideia das empresas reconhecerem o seu impacto social e se responsabilizarem por isso. Para tanto, era necessário que houvessem os auditores sociais. Eles forneceriam os relatórios sobre o impacto social e ética das corporações.

Na década de 70, já vemos modelos destinados a medir o resultado do esforço organizacional para contemplar uma gestão ética através da responsabilidade social. Um bom exemplo é a matriz auditoria social proposta por Ackerman e Bauer.

Esta matriz de auditoria social propõe um uso lógico dos indicadores, dividindo-os em um sistema de linhas e colunas (matriz), com as primeiras representando stakeholders e, as últimas, as principais atividades da empresa, em toda sua variedade de áreas e funções. O resultado foi a percepção de uma limitação séria: o estudo não previa a necessidade de adaptação da empresa a um ambiente em constante mutação – como é o mundo hoje.

A partir da detecção deste entrave, as próximas décadas produziram modelos como o de Zadek, que previa a publicação anual de indicadores de desempenho social, o famoso Balanço Social fazendo com que o processo de mensurar a ética empresarial se tornasse mais dinâmico e pudesse melhorar continuamente rumo a Excelência.

Falando ainda de balanços, podemos citar o trabalho dos professores da Havard Business School, Kaplan e Norton, que criaram a famigerada metodologia Balanced Scorecard (BSC). O Balance Scorecard vai muito além da gestão ética e promove melhorias na gestão empresarial nos produtos, processos, clientes e mercado unindo a definição da estratégia empresarial, gerência do negócio, dos serviços e da qualidade; medindo tudo através de indicadores de desempenho.

Ainda assim, produtividade e lucratividade com responsabilidade social de nada valeria, se para atingir esses resultados, internamente, as empresas estivessem movidas apenas a aumentar os números nos indicadores a qualquer custo. A sub-missão de um colaborador ao seu empregador pressupõe aceitar a missão, assim como a visão e os valores da companhia.

Através destes esforços pioneiros, obtivemos o Social Accountability 8000 ou SA8000. Idealizado pelo Council on Economic Priorities Accreditation Agency (CEPAA), esta padronização baseia-se em convenções sobre direitos humanos, capacitando as empresas a lidarem com questões como trabalho infantil, saúde e segurança, liberdade de associação, direito a negociação coletiva, discriminação, horas de trabalho e remuneração, inclusive salários mínimos.

MAS AFINAL, COMO GERENCIAR OS INDICADORES ÉTICOS DE UMA EMPRESA?

 

De uma forma geral, o objetivo de uma empresa em trabalhar com indicadores de gestão ética é estabelecer valores para benchmarking, e informar aos stakeholders a solidez de ações da empresa em promover a ética e qualidade de vida das pessoas impactados pelo seu negócio.

Na prática, a empresa precisará desenvolver programas efetivos de treinamentos para aumentar o nível de consciência e impactar comportamentos ligados à Ética entre os colaboradores, os fornecedores e a sociedade. O principal indicador é ser consistente e coerente na aplicação e na divulgação das medidas disciplinares relativas à Ética e/ou Compliance.

Compliance é o conjunto normativo que define como as pessoas deverão se comportar seguindo regras, regulamentos, normas, diretrizes internas e externas do negócio. Serve para constantemente evitar/ tratar todo e qualquer desvio, ilegalidade ou inconformidade na condução dos objetivos organizacionais.

Faz-se necessário elaborar e colocar em prática um código de ética ou conduta, nomeando um profissional responsável pela ética em seu empreendimento e possibilitando que desvios de conduta sejam comunicados através de denúncias feitas em um canal confidencial e seguro.  

Outras práticas que também se relacionam com a gestão de indicadores éticos de uma empresa diz respeito a ter uma área dedicada à mitigação dos efeitos de suas atividades sobre o meio-ambiente.

 Se empresa recicla (ou destina à reciclagem) o lixo e os detritos gerados em suas atividades e desenvolve atividades de eco eficiência, tais como, por exemplo, o uso consciente da matéria-prima, da água, da energia e de alguma forma desenvolve atividades de sustentabilidade/responsabilidade social.

COMO SUA EMPRESA TRATA AS QUESTÕES ÉTICAS?

Para identificar se sua empresa está em consonância com os preceitos éticos estabelecidos através desses mecanismos, uma boa opção é trabalhar através do método de perguntas e respostas. Alguns questionamentos prévios são importantes até para saber como está o nível cultural da empresa para aderência de uma gestão de indicadores éticos.

Questões como por exemplo: a empresa comunica o que espera dos colaboradores em termos de comportamentos éticos e comunica, claramente, a satisfação com o comportamento ético dos colaboradores formulando políticas que promovem o desenvolvimento ético? Enfatiza a intenção de desenvolver as virtudes das pessoas, e não se restringir a um rol de procedimentos proibidos? Utiliza as mídias modernas para comunicar a Ética dentro e fora da empresa?

Perguntas assim nos dão indicações prévias do nível que devem estar os indicadores éticos da gestão de uma empresa. Para o gestor, também são questões que precisam ser respondidas com vistas a aumentar o ‘clima ético’ da empresa.

MÉTRICA E MONITORAMENTO DOS INDICADORES ÉTICOS

Portanto, não basta monitorar periodicamente a participação de seus colaboradores em programas de educação e treinamento ou as denúncias de potenciais violação ao Código de Ética, sem saber se o Código de Ética está suficientemente claro para os colaboradores e se os dirigentes estão atentos para pontos do Código de Ética a ser esclarecido ou modificado.

Acima de tudo, é preciso que as pessoas se comportam de forma ética, ou seja reflitam sobre suas ações e a melhor forma de agir em prol do bem comum. Ou seja, mais do que ter em gráficos a frequência com que cresce a ‘adesão ao Código’, é válido diagnosticar o nível de conhecimento dos colaboradores em relação não apenas ao Código de Conduta mas principalmente a importância das tomadas de decisões serem pautadas na Ética. E ética, assim como a gestão, se valida sempre no campo das ações, da prática.

Pois até as questões mais simples e cotidianas podem se tornar dilema éticos. Tomemos como exemplo, a pergunta colocada como questionamento prévio, para medirmos a possível aderência de uma cultura empresarial ao gerenciamento dos indicadores éticos: A empresa comunica o que espera dos colaboradores em termos de comportamentos éticos?

Vejamos, quantas empresas discutem se aceitar os presentes do fornecedor é ético, ou seja, uma coisa é um cartão de felicitações de fim de ano, mas, é ético aceitar também vinho, agenda ou talvez só o calendário, afinal é de bom costume também não fazer desfeita de presentes…? Enfim, há um sem número de fatores que podem ser contemplados automaticamente com respostas pertinentes, uma vez que se observe a gênese da ética: comportamento adequado à cultura vigente de forma racionalizada.

Isso significa inclusive retornar ao oráculo de Delfos, e focar na velha máxima: Conhece-te a ti mesmo. Nesse caso, aplicando-se ao âmbito empresarial, conheça sua identidade corporativa e a cultura empresarial que dela emana. Insira seus colaboradores nessa cultura, e permita que ela permeie toda a operação, de ponta a ponta. A formação de uma identidade comum supõe a adoção de práticas comuns, norteadas pela fidelidade “automática” àquilo que se entende por comportamento culturalmente aceitável.

Em suma, a mensuração e a real aplicação de medidas que colaborem com a construção de um comportamento ético por parte de uma organização é algo de extrema importância. E de extrema dificuldade de implementação, por diversos motivos, essencialmente relacionados à natureza humana e mutável dos pressupostos que constroem o ethos empresarial contemporâneo. Mas é também indispensável, pois determina a diferença entre a vitória e a derrota em um mundo cada vez mais preocupado com a ética.