Uma pequena minoria daqueles que leem esse texto pertence à parcela de pessoas que realmente compreendem a fundo e obtém benefícios do que se convencionou chamar “Indústria 4.0”, ou a “Quarta Revolução Industrial”. A essa minoria pertencem os especialistas no tema, e, claro, os donos de grandes empreendimentos e parques industriais, os conglomerados empresariais e seus controladores. A imensa maioria dos que nos leem, contudo, não tem a real dimensão do que significa a mudança de paradigma dos meios de produção na pós-modernidade. Isso pode ser afirmado sem ressalvas e sem medo de errar.

Muitos se perguntarão a razão de tanta certeza. Ela fica bem clara quando lançamos mão de outra afirmação inconteste: se a grande maioria das pessoas realmente compreendesse o significado e a complexidade da Indústria 4.0, teríamos duas, e não uma revolução em curso. A primeira seria a própria Indústria 4.0, a era “pós industrial”, uma revolução inexorável, fruto da evolução dos meios de produção, impulsionada por um conjunto de fatores tão heterogêneos quanto guerras e necessidades médicas, avanços econômicos e retrocessos sociais.  A segunda seria aquela profetizada no século 19 por figuras que hoje transitam entre a comicidade e a idolatria, como Marx e Bakunin, Ludd e Ford. O que a princípio parece não ter relação entre si, ou ao menos não possuir uma ligação óbvia, na verdade faz parte de uma trama indissociável.

Mas fique tranquilo, pois nenhuma pergunta ficará sem resposta, desde que o leitor esteja disposto a enfrentar um artigo que nada tem de técnico, e não trata sobre processos, treinamentos ou gestão (pelo menos, não a gestão da qual geralmente falamos). Aos curiosos e pacientes, fica o convite: leia até o final e tire por si mesmo suas conclusões. Aos que querem apenas aprender mais sobre gerenciamento de processos e a busca pela excelência na indústria, considerem o texto como uma pausa. Retomaremos os artigos que discorrem sobre processos industriais enquanto ainda houver seres humanos nas indústrias. Afinal, para alguns, nossos artigos e treinamentos podem ser apenas uma maneira de garantir sua posição na indústria e seu crescimento profissional. Para nós, e outros que enxergam longe, eles são uma ferramenta para aprender a controlar uma das variáveis mais importantes na construção de uma nova economia e de um novo paradigma, diferente de tudo que já foi visto e proposto, justamente por ser, aos nossos olhos, um desdobramento natural da evolução do pensamento.

Ressalvas feitas, convites enviados, vamos ao que realmente importa. Para começar, é preciso dizer que para demonstrar para que(m) serve a indústria 4.0 é preciso entender o que a Indústria 4.0 é. Os mais bem informados dirão que foi o Fórum Econômico Mundial e seu idealizador Klaus Schwab que nos trouxeram a relevância da Quarta Revolução Industrial para o topo das prioridades. Afirmam inclusive que os emergentes asiáticos já saíram na frente e que o bloco ocidental (principalmente a Alemanha) já está se reposicionando para superá-los. Isto é que todos sabem e vêem. Esquecem-se que já em 1940 um documento de uma revista de Harvard intitulado “A Última Oportunidade dos Estados Unidos”, já falava da Quarta Revolução Industrial e que trazia um futuro sombrio para avanço da tecnologia e seu uso, pois representava uma “preguiça intelectual”.  Semelhante a que temos aqui no Brasil onde estima-se que menos de 50% sabem o que é a indústria 4.0 e, praticamente a mesma proporção não pensa em aumentar a produtividade com medo de não ter como escoar a produção.

Como de costume, nós não vamos nos limitar em dizer os fatos já contados, pois vemos na Industria 4.0 não apenas um desdobramento natural da evolução dos meios de produção, mas também uma tentativa de controlar essa evolução, com vistas a favorecer certos setores, minoritários, da sociedade. Trocando em miúdos, a evolução vertiginosa da tecnologia possibilitou que se produzisse como nunca antes, mas retirou a exclusividade dos meios de produção das mãos de seus donos tradicionais. Acontece que esses donos tradicionais perceberam, antes de todos os outros, que o domínio dos meios de produção poderia pertencer a todos, e rapidamente, trataram de direcionar a evolução tecnológica em seu favor. Isso explica muita coisa. Desde o medo que o operário tem de ser substituído pela máquina até a forma pela qual o gestor industrial pensa sua operação. Em resumo, um novo processo do controle foi iniciado com o novo paradigma da automatização, pois superando a mecatrônica robótica, agora com a internet das coisas e o armazenamento de dados na nuvem, esse controle pode ser exercido até as últimas consequências.  Porém, o que foi vendido ao tecnocrata como uma maneira de controlar absolutamente todas as variáveis e tirar do capital humano seu poder decisivo (afinal máquinas não entram em greve, não exigem direitos, benefícios ou qualidade de vida no trabalho e nem mesmo pagam impostos ou cobram salários), é na verdade um mecanismo de funcionamento contrário, que democratiza o controle. Mas essa democratização só faz sentido, como tudo, se for percebida. E, mais das vezes, ela não o é. Ao menos não pelo que se denomina, nas alturas do capitalismo, o “baixo escalão”.

O pensamento hierárquico, que dominou e domina o mundo (ainda), é frágil. A primazia do “dono” é frágil. A própria existência de uma hierarquia é extremamente frágil, quando se chega a um ponto no qual quem controla os dados controla tudo. E é bom lembrar que estamos em um período no qual não existe a possibilidade de esconder informações de quem as sabe decodificar. Ainda que os grandes “players” desejem esconder os jogos, ou o jogo, sua ação muito se assemelha à dos monastérios que guardavam o conhecimento medieval: não são mais que paliativos, que aguardam o dia em que uma massa letrada conhecerá os segredos que precisavam para redefinir o seu modo de existir e produzir. E quando o controle deixa de existir – ou seja, quando ele está nas mãos de qualquer um que compreenda as regras do jogo – não há mais o que controlar.

O medroso Jack Welch dizia que “se a mudança no lado de fora de sua empresa for mais rápida que a do lado de dentro, o fim está próximo”, mas preferimos a ousadia e sabedoria de Voltarie, que afirmou: “se de seu tempo, não aceitares as mudanças, provavelmente ficarás com a parte pior

Você, que leu até aqui, sabe que o poder que existe por trás da Indústria 4.0 pode ser de todo aquele que souber o que é o verdadeiro controle. Sabe que a máquina é serva do homem que sabe alimenta-la com os dados certos. Sabe que esse homem é o ser humano em seu sentido mais amplo: todo e qualquer ser humano, qualquer pessoa que se debruce sobre o paradigma, e compreenda que controle não é privilégio do maior, do mais forte ou do mais rico. Controle é privilégio de quem compreende o léxico, de quem aprendeu a ler a nova língua, e ousou criar novos termos e palavras. Quem leu até aqui não tem medo de ser substituído. Quem leu até aqui é quem vai substituir. Quem leu até e agir, terá o controle!