Eu poderia iniciar este artigo com uma definição muitíssimo simples do conceito de lucro. Que aliás, sequer merece um artigo a seu respeito, pois pertence à categoria das coisas que determinados atores sociais conhecem pela via do simples bom senso.


O conceito de lucro é, aliás, depreendido de modo “inato” pelos seres humanos, criaturas matemáticas e lógicas por natureza. Tão claro quanto o que é lucro, é também o significado de sua contraparte “negativa”, o prejuízo. Não há, portanto, razão para que eu gaste meu tempo – e o do leitor – discorrendo sobre obviedades, correto? Bem, talvez não…
Se pensarmos na simples e clara ideia de lucro, realmente é desnecessário falar sobre o conceito. Mas conceituar o que é lucro para aquele que pretende lucrar, é tão útil quanto escrever sobre “o que é música” para quem pretende tocar um instrumento como o violino.
Porém, não é de meu feitio produzir conteúdo explicando conceitos respondendo apenas ‘o que é’ (esquecendo-se dos ‘comos’ e ‘porquês’). Não produzimos esse tipo de artigo raso, focado tão somente na obtenção de “cliques”, “compartilhamentos” e “visualizações”.
Eu não escrevo para obter boas colocações nos motores de busca – embora não reclame quando as consigo, claro. Eu costumo escrever para auxiliar as pessoas a compreender conceitos e paradigmas que realmente fazem a diferença em seus empreendimentos e negócios. Portanto, talvez soe um tanto estranha a definição de lucro que vem a seguir.
Mas, eu garanto, ela é completamente pertinente.


Atualmente, estamos cansados de ouvir a palavra “lucro”, geralmente empregada para se referir à transações comerciais. A história do termo – na qual não vamos nos aprofundar – é longa. A prática de trocar mercadorias (inclusive utilizando metais como moeda de troca) é tão antiga quanto as pirâmides do Egito. Assim como a ideia de obter lucro nas transações comerciais deve ter surgido antes mesmo da cunhagem de moedas no século V a.C.
Mas foi na época do mercantilismo, prática econômica “ancestral” do capitalismo, na Europa do século XV que se firmou como prática econômica. Em resumo, à época (como hoje em dia), definia-se lucro como a parcela excedente das receitas, depois de subtraídos os custos. Os custos envolvem todos os gastos em recursos, tempo e dinheiro para lucrar. Lucro é a remuneração do que foi investido em um empreendimento qualquer. Sem isso, não seria possível a existência de empresas, e muito menos de os negócios de qualquer natureza.


Falando um pouco mais sobre o lucro do ponto de vista financeiro, podemos destacar dois tipos de lucro. O normal, que representa o custo de oportunidade total (explícitos e implícitos) de uma empresa, empreendedor ou investidor, e o lucro econômico: a diferença entre a receita total da empresa e todos os custos, inclusive o lucro normal.
Essa definição neoclássica, domina a economia moderna. De qualquer forma, tanto o lucro normal quanto o econômico se referem ao retorno, em geral, em dinheiro ou em títulos. Contudo, essa definição simples de lucro, que se aplica somente à transações comerciais e financeiras, é apenas uma das formas de se enxergar o conceito. E embora todas as visões sobre o lucro se assemelhem, e geralmente refiram-se à diferença positiva entre as receitas obtidas com a venda de mercadorias e os custos necessários para consegui-las, considero simplista falar em lucro apenas do ponto de vista financeiro, ainda mais nos dias de hoje.
O que vamos apontar aqui é a diversidade de maneiras de entender o que é lucro, nos dias atuais. E deixar claro que isso nem sempre se refere apenas ao aspecto financeiro das coisas. O lucro que desejo conceituar aqui é muito mais diversificado e variado, e nem sempre pode ser mensurado de modo exato, por ser também um valor subjetivo. O leitor, a essa altura dos acontecimentos, poderá se perguntar: onde é que esse artigo quer realmente chegar? Bem, a resposta pode até ser simples, mas desperta questionamentos mais complexos.


Isso porque empreendimentos são feitos de pessoas, antes de serem viabilizados por ativos de valor. São feitos de pessoas, e anteriormente de ideias. Assim, como mensurar o lucro obtido por uma realização pessoal? Como calcular o excedente de satisfação de colaboradores e clientes? Será possível quantificar o resultado financeiro de um final de semana de lazer? Como discriminar o excedente de felicidade de um funcionário ao receber o devido reconhecimento, ou até mesmo o lucro obtido quando temos uma empresa cuja imagem é simpática ao público em geral, o que gera os chamados “prossumidores”?
Sem mais delongas, deixo claro: Este é um artigo para reflexão. Um artigo que tem como objetivo instigar o leitor ao pensamento. Meu objetivo é destacar que todo “excedente” obtido através das boas relações humanas é tão lucro quanto o lucro financeiro, e na cadeia de stakeholders de uma empresa um depende – desde sempre – do outro para o todo lucrar.
Funcionários satisfeitos e reconhecidos trabalham melhor e garantem a lucratividade. Consumidores bem atendido e contemplados são consumidores fiéis, e evangelizadores que levam a palavra de sua cultura corporativa para o mundo. Sua cultura corporativa, e outros patrimônios imateriais de sua empresa, como sua identidade, sua missão, sua visão, seus valores (para citar o tão batido tripé), são geradores potenciais de lucro.


Então, talvez o título do artigo esteja equivocado pois pensar o que é lucro nos faz pensar em que estamos investindo nossos recursos e energia, em que buscamos lucrar (?) e quão sustentável estão os resultados. Como eu disse antes, é um artigo para reflexão.
Cabe à você, leitor, decidir. Assim como cabe a você sair da esfera do pensamento tradicional, e descobrir por si mesmo o que é o lucro (?), além do simplismo puramente calculista, matemático e financeiro.
É hora de exercitar sua subjetividade, e começar a pensar no que é o lucro, mas não através de uma definição geral. É o momento de pensar que, na era do destaque individual, o particular pode valer muito mais que o geral, e que a pergunta “o que é lucro para você?”, seja a que mais necessite de respostas. Mas estas, caro leitor, não sou eu quem vai dar. É a sua reflexão.


E se você não souber as respostas, e mesmo se sentir dificuldades até para começar a defini-las, fique tranquilo: este é somente o primeiro passo na jornada para a descoberta do real significado de lucro, e suas múltiplas possibilidades de definição. Como toda jornada, ela começa dentro da sua mente, através do seu pensamento questionador.