O Nascimento do Lucro: Da coleta à colheita!

Acredita-se que o ‘Lucro’ deve ter nascido há mais de 15.000 anos atrás. Estudos de arqueologia e antropologia confirmam que a ideia de obter um benefício ou ganho com o excedente do trabalho realizado só teria ocorrido após a revolução agrícola que se inicia por volta de 12.000 anos a.C, quando em diversas regiões do planeta, o Homo Sapiens deixava de ser somente “caçador/coletor” e passava a domesticar plantas e animais para sua subsistência.

Já nesta época, existiria a divisão e especialização do trabalho, inclusive segmentada por idade e sexo (onde a mulher geralmente coleta e o homem caça, mas ambos compartilham a caça e a coleta, com variantes entre culturas e papéis de gênero, mas sempre mantendo a estrutura), e ainda que se afirme que nas comunidades primitivas os bens são bens públicos é através da “troca” que o “excedente” da caça, pesca e coleta é compartilhado em geral.

Com o surgimento da agricultura e pecuária poderíamos analisar a fundo o panorama pré histórico e afirmar que o excedente proveniente do abate de um dos animais do rebanho – mesmo salgado ou conservado com especiarias diversas –  não poderia ser armazenado por muito tempo. No entanto, com a colheita era obrigatório armazenar inclusive para subsistência nas entre safras. Certamente, as trocas de excedentes se caracterizam como a primeira iniciativa do homem de obter Lucro através de seu trabalho.  E mais tarde este Lucro seria gerenciado sob regras determinadas por um Cacique Rei-Sacerdote, fenômeno comum no clã, tribo ou cidade.

 

Crescimento do Lucro: O Rei e a Lei

O famigerado código (do imperador da primeira dinastia babilônica) Hamurabi tinha leis que condenavam o Lucro sobre o empréstimos de capital e também leis versavam sobre o prejuízo como por exemplo a lei 45: “Se um homem arrendar sua terra por um preço fixo, e receber o preço do aluguel, mas mau tempo prejudicar a colheita, o prejuízo irá cair sobre quem trabalhou o solo”; ou a 56  que dizia “Se uma pessoa deixar entrar água, e esta alagar as plantações do vizinho, ele deverá pagar 10 gur de cereais por cada 10 gan de terra ‘. Vale lembrar que tal código tinha a pena capital como punição para vários tipos de crimes e desde 37 séculos atrás também fazia distintas punições para o mesmo delito, conforme a posição na hierarquia social do infrator.

Podemos também relacionar o crescimento da atividade comercial com a necessidade de trocar excedentes entre cidades distantes, o que faz evoluir não apenas os modos de produção, mas também os meios de comunicação e transporte. Este crescimento interrelacionado de economia, comunicação e transporte se repetem até hoje. Mas se devemos dar méritos aos pioneiros neste quesito, os fenícios com suas rotas marítimas comerciais e a incrementação do potencial de transações comerciais pela invenção da escrita potencializaram as trocas de mercadorias de tal forma, que uma nova evolução tão significativa só seria vista com o início da cunhagem de moedas que facilitavam transações.

Ainda na antiguidade, a ideia de ‘Lucro’ vai ampliando e desenvolvendo o sentido do seu conceito. Para se conseguir, por exemplo, extrair sal do deserto ou das regiões litorâneas e levar até os centros comerciais urbanos era necessário também pagar os custos da extração, transporte e comercialização. Quem trabalhava na operação também tinha dinheiro a parte do resultado lucrado, até por isso, ainda hoje em dia, a remuneração é chamada de salário.

Na Idade Média, o Lucro estava mais associado aos comerciantes burgueses, pequenos mercadores que viviam do lucro da troca de produtos ou prestação de determinados serviços. Entre a Idade Média e o Idade Moderna, surgem os banqueiros, que lucravam investindo em empreendedores, emprestando dinheiro ou fazendo câmbio de moedas. Era a formalização do lucro a partir do capital (por meio de juros). Com a revolução industrial, os burgueses se tornaram os donos dos bens de produção e das fábricas com os banqueiros não apenas coexistindo, mas também investindo e administrando os ativos das empresas nas bolsas de valores que surgirão já no século XV da era Cristã.

 

Reprodução do Lucro: Ócio e Negócio

Você agora está lendo este artigo em um determinado dispositivo eletrônico que independente qual seja (notebook, tablete ou celular) nenhuma pessoa no mundo é capaz de produzir sozinha. Ainda que a pessoa conheça de eletrônica e da fabricação destes aparelhos, ela não conhece a forma como foram extraídos os matérias utilizados na fabricação e desta forma, cada indivíduo envolvido no processo para um produto estar disponível a você, está ligado a uma cadeia de eventos e pessoas que realizaram uma parte do trabalho e objetivaram Lucro.

Adam Smith, o mesmo que disse que o homem era um animal que fazia barganhas e que a busca pelo Lucro leva o empreendedor a gerar inovações e isto traz benefícios para a sociedade, afirmou: Negócios visam Lucro, a riqueza social é um subproduto ou sub-objetivo dos negócios.

Para Max Weber, “a riqueza seria eticamente má apenas na medida em que venha a ser uma tentação para um gozo da vida no ócio e no pecado, e sua aquisição seria ruim só quando obtida com o propósito posterior de uma vida folgada e despreocupada.” Todavia para Hayek, o lucro é bem-vindo exatamente porque permite a alguns permanecerem no ócio. Com respaldo financeiro, tais pessoas podem incentivar a cultura, artes, esportes, etc. Bertrand Russell dizia que somente porque havia homens ociosos na Grécia é que puderam ser inventados o teatro, a literatura, a filosofia, a ciência, a democracia, a ideia de cidadania e de civilização e etc.

De modo que a questão do Lucro, como começamos a ver em nosso artigo anterior, e seguimos observando no presente texto, é muito mais complexa que simplesmente “ganho auferido durante uma operação comercial ou no exercício de uma atividade econômica”. O conceito é extremamente amplo, e relaciona-se com diversos outros fatores e variáveis, sendo todas elas relevantes e aplicáveis tanto para o grande Tales de Mileto, que obteve imenso lucro através do ócio com suas azeitonas, quanto para você, que nos lê e pensa freneticamente em trabalho, quando poderia tomar sua pausa para reflexão com o objetivo de se aprofundar de fato nesse artigo, e descobrir o que ele REALMENTE tem a lhe ensinar.  Em qualquer caso, se é que podemos aconselhar, tudo o que temos a dizer é: Siga buscando o conhecimento, pois o verdadeiro lucro é oriundo da argúcia, nunca da ganância.