O mito do Rei Midas conta que, certo dia em seu reino, foi encontrado perdido e bêbado um velho. Este homem na verdade era Sileno, filho do deus do vinho: Dionísio (ou Baco, como queiram). Midas reconheceu e tratou de Sileno. Ao levá-lo até seu pai divino, recebeu a benção de pedir qualquer coisa e seu desejo seria realizado. Mais que depressa, o Rei Midas pediu para ter o poder de transformar tudo que tocasse em ouro e o resto da estória você já deve saber, mas se não sabe, Midas percebe ser uma maldição ter o “toque de ouro”, pois não poderia mais comer e beber o que mais gostava ou mesmo abraçar sua família. Este mito demonstra que o ouro (apesar de todo seu valor financeiro) não mais vale que a satisfação de desfrutar da vida.

São inúmeros os mitos que propagam ideias de que dinheiro não traz felicidade, é sujo, ou que seria ‘a raiz de todo mal’. Ideias que vem do fato de se acreditar que há um número limitado de dinheiro no mundo e, aquele que mais tem, portanto, está roubando do que menos tem e, até por isso, só enriquece quem tem dinheiro pois somente quem tem dinheiro é capaz de investir. Ou seja, mitos assim levam inocentes e indolentes a pensar que se produzissem mais dinheiro e repartissem com os pobres haveria uma farta e fácil distribuição de renda que aumentaria o poder aquisitivo de todos e impulsionaria economia, a qualidade de vida e a paz mundial…!

O fato é que o dinheiro em si é uma metáfora e uma convenção social, entregamos algo de valor por dinheiro por acreditar que o dinheiro tem valor. E uma única nota ao circular entre muitos, servirá para que produtos e serviços sejam oferecidos e realizados. O que na prática elimina a ideia de que a quantidade de dinheiro existente é limitada e nunca será suficiente a todos. De fato, se uma nota de 100 for dividida por igual entre 10 pessoas, cada um teria apenas 10 reais, mas se cada um tiver um produto ou serviço a ser trocado (um com outro) por 100, aquela única nota servirá igualmente a todos e com apenas uma nota de 100, todos teriam realizado suas necessidades, desejos e aquisições, 10 x mais valiosas do que com dinheiro repartido por igual.

Contudo, mito (ou não), atualmente, sem o lastro em metal dos valores monetários existentes, acredita-se que muito do dinheiro é apenas “virtual” e que se todos ao mesmo tempo fossem aos bancos sacar o que possuem em suas contas, não haveria cédulas e moedas para todos. Sem contar o dinheiro realmente virtual, o bitcoin, que já vale mais que o ouro em muitos mercados.

O uso do dinheiro em metal foi um tremendo avanço para a humanidade, visto que através do escambo não se poderia ter a mesma flexibilidade e especialização da atividade comercial. O principal empecilho de se trocar um produto por outro produto, ou mesmo um serviço por outro serviço (ou produto) sem usar dinheiro, é o fato de que você teria que achar sempre alguém que desejasse o seu produto e tivesse exatamente o produto ou serviço que você deseja. Seria muita coincidência se isso pudesse funcionar sempre, mas a probabilidade disso dar certo é mínima.

Historiadores afirmam que a humanidade, com as primeiras cidades da Mesopotâmia, no quarto milênio antes de Cristo, já utilizava certos objetos como valores de troca, mas começou a usar ouro, prata e cobre como dinheiro só por volta de 2500 a.C, o que coloca a prática tão antiga quando as pirâmides do Egito. A cunhagem de moedas, no entanto, só vai acontecer no século 7 a.C na Lídia, atual Turquia. Outro fato interessante é que a moeda nasceria na mesma cidade onde oficialmente nascem as lojas, o bordeis e os dados para jogos. Talvez por isso tenha herdado má fama!

De lá pra cá, muita coisa aconteceu, e as transações financeiras se tornaram cada vez mais complexas e sofisticadas, com a criação dos empréstimos, bancos, juros, câmbios para diferentes moedas, e finalmente, a criação do já citado “dinheiro virtual”, presente na forma prosaica dos cartões de débito e crédito, e também com a complexidade dos bitcoins. Isso tudo colaborou para que o dinheiro, a capacidade de ganhá-lo e principalmente a habilidade de multiplicá-lo se tornassem o centro de uma cultura materialista que terminou por gerar a sociedade do ultra consumo e substituir antigos deuses (como velho Dionísio de nosso primeiro parágrafo) e dogmas por uma nova forma de idolatria, que como todas, é simplista e não se pauta nos fatos, mas apenas na percepção de suas consequências.

De forma que a adoração do lucro terminou por cercar o conceito de tabus e concepções errôneas, como aquela já citada em nossos artigos anteriores, de associar lucro imediatamente a dinheiro. Felizmente, a mesma sociedade do ultra consumo tornou viáveis novas formas de relacionamento empresarial e comercial, que relacionam-se não apenas na esfera virtual das transações financeiras, mas também se calca no mundo real, apontando novos ativos de valor que tem complementado a questão puramente financeira com uma miríade de variáveis, e proporcionado a descoberta de uma cadeia de relações que impactam diretamente os mercados, mas que não são necessariamente dependentes da monetização pura e simples. Ativos de valores novos e que até pouco tempo atrás seriam impensáveis tem surgido em ritmo cada vez mais acelerado, e hoje vemos o lucro de forma muito distinta daquela que motivava o Tio Patinhas, os Rothschilds, os Rockfellers e os Vanderbilts. Ou deveríamos ver.

Explico: Impactos éticos, sociais e ambientais – intrinsecamente ligados, a propósito – são hoje em dia pontos críticos para o crescimento econômico, colocando em xeque o conceito do lucro por si só. Isso ocorre pois, ao contrário do que se acreditava na época em que víamos o planeta como um imenso amontoado de recursos exploráveis, hoje sabemos que toda empresa gera  impacto na sociedade (que é parte do meio ambiente), independente do setor no qual se insere, e do serviço ou do produto que produz e comercializa.

Isso é óbvio no caso de empresas como mineradoras, químicas ou de geração de energia, cujos reflexos ambientais e sociais foram os primeiros a se tornarem evidentes, e que, por isso mesmo, são historicamente mais cobradas e já avançaram quanto à avaliação e gestão de seus impactos nas operações, visíveis e patentes. Outros setores, por outro lado, não conseguem identificar e avaliar seu impacto com a mesma prontidão. Afinal, é muito mais fácil identificar um vazamento de petróleo em mar aberto do que relacionar o consumo de um produto com a obesidade infantil ou embriaguez no volante pelo uso inadequado e o viés cultural errado. Isso torna imprescindível que exista uma preocupação em entender como as pessoas e o meio onde vivem são afetadas por suas operações. Se seu negócio é visto como um predador, ele não irá prosperar a longo prazo. Reputação, que se adquire através de transparência e ações focadas, é então um sinônimo de crédito e portanto de lucro.

Não se trata de filantropia ou investimento social privado, algo quase que independente do negócio principal da empresa e visto como tal não só pelos empreendedores, mas também por todo tecido social. Até as décadas de 1990 e 2000, a relação da empresa, ‘stakeholders’ e o entorno se baseava na missão de “devolver” seu valor à sociedade. Ora, não é disso que se trata. Não deve haver compensações, isto se assemelha o pensamento arcaico de que o valor e o lucro são nocivos, como evidenciamos acima. O raciocínio de que só se cresce quando o outro diminui é embrutecedor, descontinuado e incorreto.

Tem ficado cada vez mais clara a importância de se adotar uma estratégia de negócio que esteja verdadeiramente vinculada às populações por ela afetadas, com retorno financeiro sim, mas também com o retorno social e ambiental das suas ações, que é, em última análise, entendido como lucro, por qualquer mente racional que se debruce sobre o tema. Ou a empresa consegue enquadrar sua atuação perante a sociedade ao que é de fato seu impacto social, ou sua atuação social vai ficar cada vez mais esvaziada, tornando-se apenas um apêndice. E para aprofundar a comparação, o apêndice é inútil, uma relíquia de outros tempos, uma memória difusa, e nada mais. Se ele causa problemas, ou não se adequa, pode ser suprimido, cirurgicamente extirpado, e posteriormente exibido aos olhos de um aliviado paciente. Acontece que ação social, engajamento ambiental e responsabilidade empresarial não são apêndices, são matrizes. Eles são os geradores do capital social, que tem cada vez mais se mostrado como grande ativo de valor e órgão necessário ao funcionamento do organismo empresarial.

A empresa ética, e comprometida com o real e atual significado de lucrar, deve identificar seus impactos positivos e negativos e convidar a população impactada a construir conjuntamente uma estratégia de ação, o que torna não só a imagem do empreendimento mais aceitável e amistosa, mas também a relação com o entorno lucrativa de fato, e para além da velha e batida fórmula de lucro de acordo com a qual o excedente, blablabla… bem, vocês já sabem. Vamos aos fatos: Grande parte do que hoje se considera como lucro é subjetiva, oriunda de relacionamento social e de valor compartilhado. Sejamos diretos:  Não faz sentido produzir algo que não gere valor tanto para a empresa, quanto para a sociedade. Aumentar a produtividade neste contexto seria insustentável, nocivo.

Todos os negócios devem ter um propósito social que vá além do retorno financeiro. Mensurar o impacto social é fundamental para avançarmos em direção de um mundo realmente desenvolvido por isso próspero e sustentável. Portanto, não só mais justo, mas mais lucrativo. Para todos, e não só para uma parte. Quem não adotar essas práticas vai perder competitividade. Vai desaparecer. E ser lembrado como relíquia, fóssil, etapa, forma intermediária. É preciso acreditar no valor sócio ambiental e no capital social, é preciso ver o “lucro além do lucro”, pois essa crença não se funda em um dogma irracional, mas na percepção e análise de um conceito milenar. Até os dinossauros criaram asas pra escapar da extinção. Se sua empresa pode voar, por que continuar rastejando?