Na primeira parte do texto sobre a Filosofia do Lucro, explicamos a relação da Filosofia e Lucro e também do Lucro e a Filosofia. Esta análise, nos levará agora a refletir sobre Como Lucrar e Por que Lucrar (?) conforme a visão ampla e radical de alguns filósofos que se destacaram na história do pensamento. De maneira geral, selecionamos entre tantos pensadores aqueles que mais se aproximam da nossa forma de pensar o sobre tema.

COMO LUCRAR?

Um homem é rico na proporção do número de coisas de que ele é capaz de abrir mão_

O sensato Thoreau afirma, em seu “Walden”: “O luxo de uma classe é contrabalançado pela indigência da outra. De um lado está o palácio, e de outro, o asilo e os pobres, em silêncio”.  Tolo é quem acredita que estar no palácio é vantagem de fato, pois ainda que o seja, o é temporariamente. A desigualdade aviva o ódio, desperta a cobiça, prepara o terreno para a revolução, que seja qual for a bandeira, sempre termina com a troca do privilegiado, e o ciclo se reinicia. Ora, por toda filosofia que se possa consultar, tal fato é fruto do desconhecimento do conceito de felicidade, a eudaimonia dos antigos gregos, que exige “vida simples e carente de nada”. Com simples, não se quer dizer austera ou pobre, mas ausente de preocupações, como por exemplo a de manter e garantir privilégios que poderiam facilmente ser divididos com todos.

A razão da tolice é a ignorância, e esta é fruto do medo, uma paixão baixa, debilitante, negativa, como bem atesta Espinoza.  Mas não é preciso que eu me alongue. Basta que eu lhes recorde de que estamos em um tempo no qual, mais que nunca, a divisão justa da riqueza e a mitigação do sofrimento do trabalho é possível, pois avançamos muito na capacidade de produzir riqueza (em grande ou imensa parte, por conta daqueles que puderam desfrutar do ócio criativo) mas regredimos na forma de compartilhar mutuamente dos lucros e benefícios da riqueza produzida.

Temos a tecnologia e os meios para nos tornarmos cada vez mais livres da opressão de viver necessariamente de nosso suor (ou do de outros, essencialmente). No entanto, para que(m) serve os avanços tecnológicos? Ou todos desfrutam dos benefícios da prosperidade econômica e tecnológica de nossos tempos ou a separação entre os que os beneficiados e os explorados será cada dia maior. Mas se quer saber realmente Como Lucrar (?) A solução vem de dentro! É preciso conhecer e aplicar os conhecimentos adquiridos e acumulados para poder lucrar. Falamos isso desde de nosso 1º artigo! Contudo, no mundo atual, é preciso, além disso, conhecer e aplicar os conhecimentos para sobre o como e o porquê lucrar.

POR QUE LUCRAR?

“Dinheiro é a felicidade em abstrato; portanto, os que não são mais capazes de ser felizes se concentram no dinheiro” _

Assim como Espinoza e Thoreau, já citados, David Hume (que ajudou Rousseau a se refugiar na Inglaterra por volta de 1765) também traz um pensamento antimercantilista para seus textos filosóficos. Da mesma feita, Stuart Mill e Karl Marx darão ênfase na distribuição de renda e justiça social como prosperidade verdadeira. Para Marx, inclusive “o dinheiro é a essência alienada do trabalho e da existência do homem; essa existência o domina e ele a idolatra”.

Schopenhauer por sua vez dizia que “o dinheiro só é bom em termos absolutos por que não é apenas uma satisfação concreta de uma necessidade em particular é uma satisfação abstrata de todos os desejos.” Ideia semelhante a de Luis Fernando Verissimo que afirmou: “a história do dinheiro é a história da volatilização. Com o tempo ele foi ficando cada vez mais subentendido.

Após Marx e Schopenhauer, prevaleceu a Economia agora científica e distinta da Filosofia. Sua reflexão nasce a corrente marginalista com sua “matematização”, que a tornou estéril. Surgiu uma disciplina formal, de números, planilhas, quase sempre focada na monetarização da economia e no mercado financeiro. Mas para muitos economistas a economia é por excelência a ciência que estuda as melhores formas dos recursos econômicos maximizar o bem estar social.

Mais tarde, ainda tiveram grande destaque pensadores que promoveram criações grandiosas, como Keynes que era bastante envolvido com os filósofos de Cambridge e foi um dos melhores amigos de Ludwig Wittgenstein, com quem trocou muitas ideias nas décadas de 20 e 30.

Keynes influenciou fortemente a Economia mas tinha uma visão pessimista sobre o dinheiro, chegou a dizer: “Não há meio mais sutil nem mais seguro de subverter a ordem social do que o aviltamento da moeda”. Ainda dentro da teoria econômica do bem estar, o Prêmio Nobel John Hicks apresentou um modelo de econômico capaz de agregar mercado, formas de produção e crédito sempre benéfico através do ‘princípio de compensação’ que vale ser destacado aqui.

Esse viés, ainda que permeado de conceitos e definições que só nos são possíveis de compreender através da investigação filosófica, é, ao mesmo tempo, novo e primordial. A nova visão de lucro é, por assim dizer, estabelecida por uma ponte entre subjetividades: nela se encontram o pensamento do homem “primitivo”. Isso se dá por uma razão simples. O coletivismo que era natural nas antigas sociedades, o senso de colaboração como algo intrínseco e necessário, tem retornado ao homem contemporâneo pouco a pouco, com o fracasso das ideologias individualistas, que por ao menos 4 séculos têm feito com que a busca pela felicidade (aqui compreendida em seu sentido mais amplo), tenha se tornado uma busca por poder individual, e o ideal em si tenha sido pervertido, trocando-se o “ser” pelo “parecer” ou “ter”.

Como sempre afirmo, a solução das questões envolvendo a razão de ser do lucro, ou seja, o ‘porquê’ lucrar, está na valorização do homem através do seu desenvolvimento. A tecnologia que já existe está livrando-nos do jugo do esforço, e libertando nossas mentes para pensar no novo, e ir além, muito além do que imaginamos possível. Basta que exista a crença – aqui entendida como certeza, e não como dogma a se seguir, como cego a tatear –  e a esperança (fundamentadas no pensamento lógico e racional), de que a evolução de tecnologias e processos para destruir a desigualdade, estender e expandir privilégios, é possível, realista e necessário.

No entanto, devo me estender ainda um pouco mais, e dar ao possível crítico de minha exposição um exemplo prático da aplicabilidade das ideias daqueles nos quais me inspiro, e das minhas próprias, derivadas. Saiba, leitor sagaz, que antes que lhe houvessem doutrinado ao fatalismo, e ao finalismo, irmão deste, os arautos da necessidade (aqui entendida em seu mais estrito sentido), esqueceram-se, ou não fizeram caso, de soterrar certas evidências. Estas, hoje ainda mais vastas, atestam que a via que enxerga o lucro em sua definição “tradicional” está longe de ser a única.

TEORIA E PRÁTICA DO LUCRO: CONCLUSÃO E CONSIDERAÇÕES FINAIS

“É preciso saber o valor do dinheiro:

os pródigos não o sabem e os ávaros ainda menos.”

Barão de Montesquieu

Para enfim concluir, primeiramente comecemos perto daqui, no antigo Tawantinsuyu.

O nome não é nada familiar, e isso tem uma razão: você provavelmente conhececomo “Império Inca”. Este estado, altamente tecnológico e bem gerido, é um dos exemplos de que o lucro pode ter uma função, um destino e uma definição completamente diversos do que somos condicionados a crer (não nos esqueçamos de que fomos também condicionados a crer que o Império Inca era tecnologicamente inferior aos conquistadores espanhóis).

Uma breve explanação da economia “Inca” deixa claro meu ponto:

A estrutura básica da organização econômica inca era o ayllu: Uma comunidade composta por diversas famílias, ligadas por um antepassado comum. A cada uma destas comunidades, cabia um determinado território, governado por um chefe eleito entre os mais velhos, o kuraca. Cabia-lhe a distribuição das terras para membros da comunidade aptos para o trabalho, que podiam ser realizados com o fim de prover materiais e alimentos para o Inca (imperador), com o objetivo de gerar riqueza para a família, sendo realizados na terra que lhe pertencia, e, por último, os trabalhos realizados para prover o sustento de quem não podia, por qualquer motivo, produzir. O sistema de auxílio mútuo era extremamente sofisticado, baseando-se em terras coletivas e reservas destinadas aos tempos de fome ou estiagem. E até mesmo os yanaconas, os prisioneiros de guerra, eram servos e não escravos pois inclusive tinham direitos a possuir bens.

Todos os cidadãos escolhiam seus representantes e exerciam trabalhos coletivos, como por exemplo a manutenção dos canais de irrigação. Não havia dinheiro, o excedente era dividido igualmente entre quem o produzia, e quando era comercializado, o era entre habitantes de regiões distintas, através de sementes de cacau ou conchas coloridas, que representavam muito mais uma aliança de amizade que um mecanismo semelhante ao dinheiro, servindo para reforçar os laços entre comunidades, nunca a relação perde-ganha do mercado.

Falando em mercado, o sistema econômico inca era tão atraente que a maioria dos povos do império se uniam a ele voluntariamente, embora o exército Inca fosse, como hoje se sabe, muito superior ao das grandes potências europeias da época. Impressionado com os incas? Espere até conhecer Harapa.

Harapa, Lotal e Mohenjo-Daro eram grandes cidades da chamada civilização Harapa, que floresceu durante milênios no que hoje é o vale do rio Indo, na Ásia. Tendo florescido provavelmente de 6 mil A.C até 1.900 A.C, a civilização impressionante foi “descoberta” na segunda metade do século 19, e impressionou os arqueólogos, que de início a descreveram como “um reino de meninos”, pois não se encontraram armas ou sinais de hierarquia nos sítios estudados, mas sim jogos de bola de gude, tabuleiro, piões e brinquedos diversos.

Não havia sinais de mortes violentas ou de desigualdades sociais, e a fome só é reportada no final da civilização, decorrente, provavelmente, dos efeitos de uma mudança climática. Os dravidas e arianos, que sabe-se terem conquistado violentamente outras partes do que hoje são o Paquistão e a Índia parecem ter deixado a civilização Harapa intocada.

É provável, também, que Harapa nunca tenha tido um fim, mas sim que tenha se transmutado gradualmente na civilização indiana atual, com a qual partilha traços culturais diversos (é de Harapa a primeira representação do “deus chifrudo” dos indianos, Shiva Pashupati).

De toda forma, em Harapa encontramos escultura, selos, jóias e vestuário. Nunca armas, nem descrições de batalha. Nunca são descritas transações comerciais, mas apenas trocas que estreitam laços entre povos e famílias, como no supracitado comércio Inca.

A arquitetura harapana não nos legou templos grandiosos, ou palácios magníficos. No lugar destes, havia salões amplos, e casas e confortáveis construídas em ruas largas. A maior construção é a dos reservatórios de água e banhos públicos. Ao que parece, eram usados para a diversão, sem nenhum aspecto religioso ligado a eles. Não há descrições de reis ou deuses, mas sim de “guias”, todos representados como o benevolente e barbudo ancião cornudo, tão semelhante ao Shiva Pashupati (ele mesmo um pacífico yogue, que contempla e aconselha, mas nunca ordena). Entretanto, Harapa era rica.  As roupas eram sofisticadas, como mostram os vários selos, e os brinquedos eram feitos com materiais caros, como marfim e pedras semi preciosas, tal qual o jaspe e o jade. 

A matemática e as letras eram avançadíssimas, o que mostra que havia tempo para se dedicar ao estudo, o que supõe uma civilização agraciada pela fartura. Mas não uma fartura natural, pois praticavam a irrigação e o cultivo em larga escala. Como então a “civilização de meninos” pode sobreviver e prosperar por tantos séculos, sem dinheiro, sem propriedade privada, sem guerra e sem deuses, exceto por um deus que mais se assemelha a um conselheiro que a um legislador? Como puderam os harapanos viver um cotidiano marcado por artes e brincadeiras, sem classe social ou econômica, em um mundo onde já existiam civilizações que adotavam muitos de nossos conceitos de comércio e economia, como o Egito e a Mesopotâmia?

A resposta está no início desse texto: A visão de lucro dos incas e harapanos era diversa da nossa. Essas pessoas valorizavam outros ativos. Possuíam outro tipo de pensamento em relação ao destino dado a seu excedente de produção. E sucumbiram, não ao seu modo de vida, mas a ameaças climáticas que nos assolam ainda hoje, e podem provocar o colapso da nossa civilização. Não se foram por serem menos avançadas, ou por estarem equivocadas em seu modo de pensar, mas tão somente em decorrência de catástrofes inevitáveis (que agora podemos, ou poderíamos, caso nos focássemos nisso, evitar).

Eu imagino o que os harapanos fariam, por exemplo, com as modernas técnicas de gestão e com a tecnologia do século XXI, e penso que o mundo já foi salvo, há milhares de anos atrás, e nós simplesmente não prestamos atenção às lições do passado. Mas deveríamos!