No artigo anterior, falamos sobre a realidade por trás das ações pensadas para gerar lucro, de acordo com as ideias e disposições de organizações, pessoas e setores que parecem mais preocupados com a imagem que o público faz de seus “esforços” e “iniciativas”, que com a obtenção do que consideramos – nós, e em menor medida elas mesmas, o real lucro.

Vimos também que a definição clássica de lucro, utilizada em paradigmas econômicos menos subjetivos, e infinitamente mais “materiais” que o atual, não mais abarca a infinidade de fatores e condições que podem ser associados ao significado da palavra enquanto conceito, ou seja, em termos daquilo que o ser humano compreende, trabalha e constrói a partir de sua própria apreensão o ato de lucrar é natural e anterior ao uso do dinheiro.

 Assim, entendemos que o lucro, longe de ser um ativo apenas financeiro – no sentido estrito da palavra – é também um ativo que pertence ao mundo do intangível, ao universo das ideias. E é por isso que devemos, agora, analisa-lo por um viés estritamente filosófico.

FILOSOFIA E LUCRO

“É mais fácil escrever sobre dinheiro do que ganhá-lo” _ Voltaire

Nós não somos os primeiros filósofos, a pensar sobre a origem e prática do lucro, até em outros artigos já citamos, por exemplo, Tales de Mileto, primeiro filósofo europeu e que também pode ser considerado o primeiro pensador a aplicar seus ‘conhecimentos filosóficos’ para obter lucro.

Ele assim o fez, quando previu com antecipação que haveria uma safra de azeitonas acima da média e arrendou alguns armazéns e prensas para que lucrasse alto, alugando-os a todos que precisariam estocar (e processar o azeite) com a farta colheita das azeitonas.

A visão de Tales frente ao mundo é considerada um avanço na forma de pensar, pois ele não se apoiava numa visão mitológica para explicar a origem das coisas. Desta forma, inclusive, nasceu a Filosofia Ocidental, advinda da tentativa humana de explicar a realidade utilizando a razão (observação e dedução lógica) e não mais apenas com estórias mitológicas e suposições.

Representantes, acima de tudo, dos bons prazeres da vida proporcionados pelo deleite dos sentidos, os Hedonistas e Epicuristas poderiam representar o seleto grupo de filósofos que em certa medida seriam apreciadores do luxo e das riquezas. Vale ressaltar, no entanto, que os epicuristas são visto como materialista devida a visão não transcendental da realidade e não por que buscam acumulo material, apesar de não se posicionarem contrários de todo a esta busca.

Contudo, os pensadores clássicos parecem avessos à busca por lucratividade e ao acúmulo financeiro. De fato, não apenas podemos citar dentro deste outro grupo os Estóicos e os Cínicos mas até mesmo a santíssima trindade da filosofia grega clássica (Sócrates, Platão e Aristóteles) creditaria um valor real (e maior) de riqueza ao ócio contemplativo (o único capaz de contribuir para a busca da verdade e da sabedoria) e, por isso, desprezariam ao negócio que, em suma, é também a negação ao ócio.

Sócrates não tinha ofício remunerado, nem buscava rendimentos sobre o que ensinava. Platão achava o comércio algo degradante, porém um mal necessário em sua republica utópica, onde apenas estrangeiros seriam ocupados dessa função, aos demais alias a prática seria considerada crime que valeria um ano de confinamento, reincidência dobraria a punição ao delito.  

Aristóteles, por sua vez, aceita o comércio desde que feito de forma justa. Fica mais claro essa ideia de justiça econômica aristotélica quando analisamos a dicotomia entre æconomia e chrematistiké que ele faz. A æconomia está relacionada a administração do lar e aos meios de ganhar a vida onde a troca e a aquisição de provisões e bens estariam limitadas a satisfazer as necessidades naturais da família. Já a chrematistiké não seria algo natural, ela se relaciona com ganho sobre empréstimo, comércio, ou seja, é a arte de ganhar dinheiro pelo dinheiro que podem ser resultantes de injustas e desiguais relações.

A mensagem de Aristóteles de busca pela excelência e virtude nas relações econômicas chega até Santo Tomás de Aquino que nos trará reflexões elaboradas da ideia de “preço justo.” Mas, nada se compara a visão econômica de Ibn Khaldun que analisou conceitos como preço, lucro, oferta x procura e concorrência antecipando (já na idade Média) ideias a respeito de acumulação de capital e propriedade que o pensamento ocidental só iria elaborar com John Locke.

LUCRO E FILOSOFIA

“Assim que fizer seu preço ter relação com a necessidade do outro, você se torna um tipo refinado de ladrão_ Nietzsche

Contudo, para falar de propriedade e acumulação de capital temos que recorrer a Rousseau, que em seu “Discurso sobre a desigualdade” nos diz: “o verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado o terreno lembrou-se de dizer “isto é meu” e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: “evitai ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém”

Em outras palavras,  o privilégio do individual em face ao coletivo é a razão pela qual o conceito de lucro, ou mais especificamente, de excedente, deixou de ser um ativo de valor focado na busca pelo conforto real, pela satisfação de necessidades não fundamentais – que são o grande motor da experiência subjetiva humana, e proporcionam condições que nos permitem desenvolver nossa criatividade, socialização complexa, trabalho artístico e afins – para se tornar um convite ao acúmulo e concentração desnecessária, do ponto de vista coletivo, de riqueza.

Isso podia fazer algum sentido em eras passadas, ainda que seja difícil dissociar o conceito de vantagem individual da decadência coletiva, por qualquer ótica. Mas, mesmo que fosse lógico enxergar o lucro como algo destinado ao indivíduo e relacionado à propriedade privada e à vantagem especulativa, sabemos, empiricamente, que a manutenção do excedente, a virtualização do valor e, em última análise, a concentração de renda, foram e são fatores preponderantes para o surgimento – e manutenção, pasme – da miséria.

Uma análise superficial contrapõe a noção de lucro com o conceito de pobreza. Por um fator muito simples: Desigualdade gera custo. E talvez o maior deles seja a grande mola propulsora da ganância que transforma o lucro, que deveria ser o ativo que movimenta o ócio (aqui compreendido como o tempo ÚTIL no qual o homem não se ocupa de sua própria sobrevivência, mas com a compreensão e tradução de seu mundo), no baluarte que mantém a posse.

A posse que, afirmava o filósofo Jean Jacques Rousseau, é a razão de tantos, senão de todos, os conflitos de uma espécie que se sabe originalmente pacífica, colaborativa e inclusiva. A ciência contemporânea o atesta, e um caso interessante é o da assimilação de tecnologias e intercâmbios pacíficos entre homo sapiens e neandertais, na europa pré histórica. Não à toa, os europeus tem em seu código genético até 4% de DNA exclusivamente neandertal.

A Parte 2 deste texto continua com a análise da Filosofia sobre Como e Por que Lucrar?

 

Continua…