Provavelmente você já ouviu alguém falar que o problema do Brasil é cultural. Que somos um país colonizado, subdesenvolvido e sem o compromisso com a cidadania, a educação e a formação. Será também que o Brasil é um país que não tem uma ‘cultura de excelência’?

Podemos afirmar que a questão da ‘cultura de excelência’ pode ser influenciada pelas ‘questões culturais’ que são tão diversas quanto a quantidade de países existentes no mundo. E a questão cultural é (sim) colocada como motivadora do nosso atraso econômico.

Isso ocorre por que vemos paradigmas culturais bem sucedidos em termos econômicos nos países da América do Norte e do norte da Europa, nos suíços e nos orientais chineses e japoneses, e pensamos logo que suas conquistas vem através de suas “culturas de excelência”. Admiramos, por isso, suas conquistas e os vemos como exemplo a seguir.

Isso também faz parte de nossa cultura, a admiração pelo que vem de fora e a tentativa de imitação dos padrões que geram o sucesso (ainda que a definição de sucesso vinda de fora, seja portanto, estrangeira e forasteira). Assim, desde há muito, temos mirado nossos esforços na mimetização da cultura do outro, o que fica claro tanto em termos de condução econômica quanto em termos de padrões de educação e de gestão que estamos seguindo.

Mas se ao invés de perguntarmos: “o Brasil é um país que tem uma ‘cultura de excelência’?”; a questão fosse reformulada para: “a ‘excelência nas ações’ é um ponto forte na cultura dos brasileiros?” O que você me responderia? Veja que se for colocado dessa forma, cabe inclusive nos questionar: sobre quais ações estamos falando, afinal?!

De acordo com dados recentes, o Brasil ocupa a pífia 61ª posição no ranking que compara a competitividade entre 63 países. Atrás do “gigante adormecido” (que acorda de quando em quando, um tanto confuso, por ter tido pesadelos), ficam apenas a Venezuela e a Mongólia.

A primeira, um país vindo de uma tentativa frustrada de projeto político “bolivariano” (ainda que o próprio Bolívar discordasse veementemente disso, se vivo estivesse). A segunda, um deserto de tribos nômades (nem um pouco preocupadas com a competitividade, diga-se) e com poucas áreas industrializadas, um enclave entre potências como Rússia, China e Índia.  No topo, da tabela: Hong Kong (China), Suíça, Singapura, EUA e Holanda lideram o ranking. E o que eles tem de excelente (e diferente do Brasil)? Neste ranking de competividade, o que vale é o desempeno econômico, a eficiência do governo e das empresas e a infraestrutura.

Os primeiros do ranking possuem tudo isso e são inclusive referências de qualidade e competitividade no mercado global. Difícil é entender as razões pelas quais um país com as proporções e pretensões do Brasil, simplesmente, fecha os olhos ao básico da cartilha do desenvolvimento econômico. Mais difícil ainda é entender: como um ranking de competitividade aparece dentro de um artigo sobre cultura e padrão de excelência?

Talvez este último questionamento venha quebrando totalmente o questionamento anterior, e nos obrigue a relembrar alguns detalhes sobre a Excelência que começamos explicar no último artigo. Entretanto este artigo não ficará apenas na elucidação da raiz do conceito de Excelência, seu uso primordial e seus primeiros desdobramentos.

 Basta dizer que esta série visa te ajudar a entender como praticar a Excelência hoje, um período onde os Prêmios de Excelência premiam Competitividade e Qualidade. Atualmente, ambos (Competitividade e Qualidade) praticamente tornaram-se sinônimos de Excelência, mas será que são realmente?

Vejamos que de início, temos a convivência de um paradoxo com uma realidade tangível. Nos baseamos em um modelo que promete a Excelência. Mas modelos e padrões, como um todo, partem sempre do geral. E a Excelência se encontra, como vimos, no particular.

 Se tomarmos o exemplo das empresas, vemos bem como o processo é desvirtuado em seu cerne. Não apenas se busca a Excelência na forma de um “atestado”, uma “premiação” ou uma “certificação”, mas também se busca em um contexto geral sempre por reconhecimento, como uma posição a subir no ranking mundial.

Contudo, não há sequer um requisito para tal empresa focar na excelência individual e particular de seus colaboradores, recomenda-se tal façanha (talvez) para os processos mas o foco é na padronização, quando muito. A cultura de excelência, tão louvada e apregoada, nada mais é que uma cultura que busca por reconhecimento, que vê no reconhecimento do padrão de excelência, e não na cultura de excelência em si, um objetivo.

Sem medo de errar, podemos dizer que é muito semelhante, por exemplo, às “guerras floridas” do período pré-colombiano, nas quais os astecas procuravam agradar os deuses e manter a ordem cósmica com guerras, mas que se transformaram, ao longo do tempo, em simples ação predatória desprovida de outro sentido que não o de atestar superioridade.

A cultura de excelência, no caso do Brasil, é uma “guerra florida”: determinam-se alvos, e o atingimento desses passa a ser um objetivo inexorável, ainda que o custo, por vezes, seja altíssimo, e até afaste a operação da excelência de fato com a falta de inovação e criatividade. Isso por um motivo muito simples: a excelência não é e nunca foi sinônimo de competitividade. Também nunca foi atributo passível de padrão. De forma que a associação em si já afasta da meta quem quer ser excelente (inclusive em excelência) por estas vias.

Já que estamos falando de Excelência podemos relembrar um pouco do já que falamos no último artigo, citando outro exemplo grego e clássico para ilustrar e comprovar nossa constatação sobre a questão dos padrões e das culturas de Excelência.

Certamente, a maioria dos leitores já ouviu falar na famosa Guerra de Troia, popularizada no cinema e na literatura, um dos contos clássicos mais recontados da história. Nela, temos muito sobre a excelência, mas em particular, há um exemplo que demonstra bem que ser excelente não é ser igual a outros excelentes, e nem mesmo tentar igualar ou superá-los.

Um dos grandes heróis dessa contenda é Aquiles, o semi deus. Sua busca é atestar a aretê (virtude, primazia, excelência) intrínseca a ele, herdada de sua mãe, a deusa titânia Tétis. Aquiles nasce excelente, e vai a Troia mostrar o quão excelente é. Encontra a morte como resultado de sua prova.

Por outro lado, temos Ulisses, ou Odisseu, outro grande herói da infame guerra. Ao contrário de Aquiles, Odisseu não deseja ir à guerra. Tem outras prioridades, como seu filho e sua amada esposa. Contudo, mesmo a contragosto, vai. E sobrevive, não só à guerra, mas aos caprichos dos deuses que o afastam da pátria por anos a fio. Quem seria mais excelente, Odisseu, o imperfeito humano, que vivia e guerreava em busca da própria paz, ou Aquiles, o semi deus sedento de glória?

A resposta está na Finalidade a qual cada um se propôs. E também no fato de que nós, contemporâneos, vemos a finalidade na Excelência, e a percebemos como um objetivo a ser alcançado por si, e não como uma prática cotidiana que leva ao alcance de objetivos maiores. Nesse sentido, não há finalidade na Excelência enquanto aretê, pois ela é qualidade intrínseca, colabora no alcance de um fim, mas não é, e nem pode ser, o fim em si, já que é um meio, uma ferramenta, uma qualificação.

Podemos ir além e aproximar ainda mais a ideia de Excelência, Finalidade e Qualidade pois essa aproximação não é nova, tanto que a própria definição de Qualidade para diversos especialistas caminham neste sentido.

 Joseph M. Juran, pai da qualidade e da gestão por pareto, dizia que Qualidade é adequação à Finalidade ou ao uso e, portanto, teria mais Qualidade o produto que mais atende às necessidades do cliente.  William E. Deming, pai do CEP (conheça também nosso curso de Controle Estatístico de Processo), dizia que o objetivo (da Qualidade) é atender um único fim: a necessidade dos usuários, presentes e futuros.

Consegue ver a relação disso com a busca pela Excelência, seja individual ou focada em um processo ou em uma operação industrial em grande escala? Ainda não?! Não tem problema, pois isso é o que veremos nos próximos artigos deste série.

Continue lendo esta série para descobrir conosco… Leia também o primeiro artigo da série para saber mais sobre Excelência:  SUA EXCELÊNCIA, A EXCELÊNCIA