Na hora de solucionar problemas, a melhor ferramenta é a navalha! Não, caro leitor, você não está no blog errado, e nós não mudamos nosso ramo de atividade para os serviços de barbearia ou cutelaria. Hoje, vamos falar sobre um tipo diferente de navalha, tão preciso e afiado quanto o instrumento de trabalho dos alfagemes, mas com aplicações muito mais amplas e, portanto também, muito útil: A Navalha de Ockham, que ganhou seu nome no século 19, muito tempo depois do nascimento de seu “criador” o filósofo inglês e frade franciscano que viveu entre os séculos 13 e 14, Guilherme de Ockham (que deve seu “sobrenome” ao vilarejo à sudoeste de Londres onde nasceu).

O conceito desenvolvido por Guilherme não era inédito. A filosofia grega já havia desenvolvido algo parecido, o que fica bastante explícito nos escritos de Aristóteles. Os romanos, herdeiros culturais da civilização helênica, batizaram o princípio de “Lex Parsimoniae”, a “Lei da Parcimônia”: um princípio lógico que postula de forma clara e inequívoca que “a solução correta para uma questão é quase sempre a mais simples possível”, ou seja, aquela que envolve menos fatores. Atribui-se a Guilherme de Ockam a sentença: “É inútil fazer com mais o que pode ser feito com menos.” A denominação “Navalha” vem desse pressuposto: Cortar tudo aquilo que é excedente, e que não colabora para a formulação de um hipótese diferente da mais simples possível.

O que isso significa na prática? Imitar a natureza, que é sempre econômica em suas realizações, pois, hoje sabemos, trabalha com a conservação de energia como máxima fundamental. Muito antes de Newton ou da descoberta dos princípios da termodinâmica, os filósofos já tinham se dado conta disso: Ao procurar uma solução para um problema, a natureza opta sempre pelo caminho mais fácil (ainda que para nós possa não parecer). Qualquer semelhança entre o processo pelo qual a natureza produz e faz a manutenção da vida, e o modo como deveria funcionar uma operação industrial não é mera coincidência.

A partir dessa ‘descoberta’ sofisticada e simples, tanto os antigos gregos quanto o monge inglês, passam a usar o princípio com frequência, e até mesmo foram criticados por isso. Críticas à parte, o processo provou ser extremamente eficaz, tão eficaz que acabou se tornando uma ameaça ao próprio pensamento cristão de Guilherme, já que Deus não é exatamente um bom exemplo para uma coisa simples (ao menos para o senso comum). O filósofo lida com isso de forma pragmática, afirmando que Deus poderia escolher um caminho mais complicado para alguns fenômenos, se fosse de sua vontade, mas que os homens – até para compreender, ou tentar compreender, a natureza da divindade – deveriam sempre eliminar conceitos supérfluos.

Curiosidades à parte, a “Navalha” é eficaz, comprovadamente. E suas aplicações, dada a abrangência do conceito, são inúmeras. E a mais importante delas, que talvez abarque todas as outras, é a concepção do método científico. O mesmo que guia os avanços da ciência e da tecnologia, deveria guiar todas as operações industriais e empreendimentos. Não sendo uma lei da ciência, mas sim um princípio de investigação científica, a Navalha de Ockham não pretende afirmar que hipóteses complexas devem ser descartadas. Pelo contrário, ela afirma, categoricamente, que essas hipóteses são exceções à regra geral da ‘economia da natureza’, argumentando que a economia de energia é sempre a forma mais eficaz de se trabalhar com qualquer problema acima de tudo, sendo a busca por uma hipótese correta mais simples pois esta, quase sempre, será a verdadeira.

Na prática, a Navalha serve para cortar aquilo que é desnecessário em uma operação, e nos lembra da máxima “Descomplique”. Não devemos cair na tentação de tornar as coisas mais complicadas do que precisam ser, e nem nos apegar a qualquer crença sem verificar sua veracidade. Um verdadeiro manual de um só capítulo, que poderia ser definido, à luz dos tempos atuais como “Menos é Mais” ou “Faça mais com menos”.

Se existe uma explicação lógica mais simples para qualquer que seja o problema, e se esta explicação abarca a mesma conclusão de outras explicações complexas apresentadas, é hora de admitir: a explicação mais simples está certa. Mais que um princípio de investigação e uma ode à simplicidade, a Navalha de Ockham faz a diferença quando o assunto é produtividade e economia de recursos. Ela pode ser a peça que faltava para o seu sucesso.

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