Para muitos mudar o mundo é uma utopia, principalmente, se for através de uma gestão mais humana. Mas em nosso texto anterior, falamos sobre a gestão como doença, e as consequências da aplicação de um sistema pensado para máquinas sobre a mão de obra humana.

Seguindo o tema, chega o momento de refletir sobre como mudar esta situação. Para tanto, é preciso entender as causas e não tratar apenas as consequências. Podemos começar então evidenciando a principal causa: De onde surgiu a ideia de que seres humanos podem ser geridos e conduzidos da mesma forma que máquinas?

Bem, a resposta mais curta (e a mais adequada para o nosso caso) é que assim que a ciência e a filosofia tomaram conhecimento sobre o funcionamento dos órgãos e sistemas que mantinham a vida dos animais, a ligação entre a operação natural destes sistemas e o modo como funcionavam, os engenhos feitos pelos humanos ficaram também evidentes.

A partir daí, passamos a ver os animas como “máquinas” criadas por uma inteligência superior, que dotara os mesmos de um complexo sistema de funcionamento, guiado por algo que se definiu como “instinto”. Contudo, os humanos diferiam, na mente de nossos antepassados, dos animais. Isso devido a algo que nos tornava únicos: A alma.

Com o iluminismo dos séculos 17 e 18, muitos passaram a ver o homem como um animal igual a todos os outros, sem distinção alguma, e que funcionaria guiado pelos mesmos princípios, diferenciando-se apenas pela sua inteligência.

Esta última, inclusive, foi colocada no rol das grandes descobertas após a ampla aceitação da teoria da evolução das espécies, de Charles Darwin. Portanto, o raciocínio é de que se funcionamos como máquinas, podemos ser operados como elas, e designados para cumprir determinadas funções de forma eficiente, rápida e, o mais importante, sem questionamentos.

COMA SEUS LEGUMES

É claro que a teoria é mais simples que a prática, já que seres humanos são voluntariosos, independentes, emotivos, e tem a tendência de lutar por seu bem-estar. Qualquer um que conheça a história sabe das dificuldades dos colonizadores europeus ao “recrutar” seus escravos entre os povos colonizado – ainda que raramente admitissem que fossem fruto da inteligência destes últimos.

O caso é que se você, leitor, já tentou convencer seus filhos a comer os legumes, você sabe do que estamos falando. Seres humanos não são tão fáceis de se manipular. A menos que você saiba muito bem como fazer isso e, aquele a ser manipulado não saiba se defender.

Algumas formas de manipulação são óbvias, conscientes de parte a parte, como o caso de um suborno, uma chantagem ou uma ameaça. Geralmente funcionam bem, se aplicadas a indivíduos muito específicos. Porém, não tem efeito garantido, justamente pelo fato de que as pessoas sabem que estão sendo manipuladas dessa forma.

No entanto, e se houvesse uma forma sutil, imperceptível, com grandes chances de sucesso para levar alguém a fazer o que queremos? Não estamos falando de opressão declarada, como o que se fazia no final do século 19, quando as pessoas precisavam trabalhar 16 horas por dia, ou mais, simplesmente para poder comer e ter um canto para dormir.

Estamos falando de convencer pessoas a ocupar determinados lugares na sociedade, produzir, gerar renda, alavancar o crescimento e influenciar outras pessoas a fazerem o mesmo, sem se darem conta do que estão fazendo.

COMA OS LEGUMES QUE EU ESCOLHI PARA VOCÊ

Façamos um exercício simples: Pense na sociedade atual. Se tiver dificuldades, releia nosso texto anterior. Se deseja fatos e dados, podemos citar que entre 2002 e 2012 a taxa de suicídio em São Paulo subiu 42%; 800 milhões de pessoas passam fome, mas obesidade e acidentes de carros matam mais, e uma em cada duas pessoas sofre (ou sofrerá) de ansiedade e depressão.

Como podem existir pessoas que se consideram felizes, e até mesmo pessoas que não questionam suas condições, em um mundo obviamente opressivo e estressante como o nosso? Se sua resposta foi “eu não sei”, está na hora de conhecer a engenharia social.

A engenharia social parte do princípio de que o elemento mais vulnerável de qualquer sistema de segurança da informação é o ser humano, o qual possui traços comportamentais e psicológicos que o torna suscetível a ataques que visam manipulá-lo.

Partindo-se do princípio de que a mente humana é, em si, um sistema informático, e que tem seus próprios mecanismos de segurança, talvez o conceito de engenharia social seja a ferramenta mais malignamente genial de todas.

Desde a exploração do chamado “comportamento de manada” até a exploração da necessidade de pertencimento, seres humanos são pródigos e “brechas” através das quais podem ser controlados de acordo com a vontade de outrem, seja esse “outrem” um indivíduo, um governo ou, como tem se tornado cada vez mais comum, uma empresa.

Obtendo a informação certa, tudo pode ser manipulado. Do que se compra até o tipo de trabalho que se faz, ou a carreira a se escolher. A mídia e a sociedade têm uma participação fundamental nisso, e atestam que a engenharia social já era utilizada mesmo antes do conceito ser definido.

Um bom exemplo que podemos citar é o convencimento dos servos medievais de que eram inferiores aos seus senhores por conta do “direito divino” (manipulação através da tradição e da religião) ou no senso comum que prega que os filhos dos mais abastados devem ingressar em profissões “nobres” por terem sido convencidos, através de convenções culturais, de que são superiores de alguma forma.

COMENDO OS LEGUMES QUE VOCÊ GOSTA

Na prática, todas as informações que fazem parte de um sistema em que possuem características comportamentais e psicológicas são passíveis de manipulação através de técnicas como leitura fria, linguagem corporal, leitura quente. Eficazes na aquisição e na manipulação de informações físicas, mas relacionando-se com dados comportamentais e psicológicos.

Os mais apressados dirão que estamos perdidos, e nós não os culpamos. É realmente assustador saber que o que você faz talvez não seja fruto da sua vontade, mas do desejo de outro, e por um motivo, em geral, muito menos nobre que se pensa. Haveria esperança?

Bem, sim. Ela se chama sociologia clínica. O nome é pomposo, mas a disciplina não nasceu nada bonita. A sociologia clínica é um ramo da sociologia, nascido nos Estados Unidos na década de 1920, estuda as possíveis melhorias dos comportamentos assumidos pelos indivíduos dentro de suas condições sociais, especialmente comportamentos problemáticos, visando a melhoria de indivíduos e suas relações sociais dentro de sua comunidade.

Na época, flertava, ou ao menos era alvo do flerte de aberrações como a frenologia e a eugenia. Mas não era essa a vocação a ela reservada quando o termo foi inventado em 1929, pelo patologista Milton C. Winternitz, que propôs uma especialização de sociologia clínica na Universidade de Yale, da qual ele era diretor.

A ideia de Winternitz era muito mais aproximar a sociologia da psicologia, abrindo caminho para tratar “sociedades doentes” algo completamente distinto dessas teorias citadas que visavam ‘patologizar’ comportamentos sociais.

De lá para cá, mudou muita coisa, mas o cerne da engenharia social permaneceu o mesmo, e a doença gerada por ela, a mesma que citamos no texto anterior, intensificou-se. Daí a esperança: se compreendermos a “mente coletiva”, poderemos submete-la à análise, e talvez curá-la.

Como em todo processo de cura terapêutica, este é permeado primeiramente pela detecção, aceitação e compreensão do problema. Ou seja: É preciso que acordemos. É POSSÍVEL QUE SAIBAMOS QUE TEMOS ESCOLHAS E QUE ELAS SÃO NOSSAS. É possível acordar através do conhecimento.

É preciso que saibamos que essa sanidade pode ser fatalmente comprometida por uma vida inteira dedicada a fazer parte de um sistema, simplesmente por ser assim que nos transformamos no que não somos: Máquinas. Eis a resposta para nossa indagação, tão inquietante, feita no último artigo. Para curar a doença social, é preciso uma sociologia clínica.

 

POR UMA GESTÃO MAIS HUMANA, MAIS PRODUTIVA E SAUDAVELMENTE LUCRATIVA

A gestão é modelada por duas vertentes. Uma é a gestão da produção e outra é a gestão de pessoas. A gestão de produção busca produtividade e está preocupada em desenvolver ferramentas e técnicas a serviço da eficácia e do desempenho dos processos.

A gestão de pessoas é algo bem mais complexo, pluridisciplinar, e apoia-se não apenas nas ciências exatas mas também nas ciências humanas tais como a antropologia, a psicologia e a sociologia. (Ou deveria).

Além disso, não podemos esquecer da economia, pois afinal, o lucro é o objetivo essencial da gestão. Atualmente, economia virou sinônimo de redução de desperdícios, custos e despesas mas oikos nomos é essencialmente ‘organização da casa’.

E a eco-nomia dentro do viés da sociologia clínica afirma que a gestão deveria respeitar 3 princípios básicos: o oikos logos (o ecológico desenvolvimento sustentável); o anthropos logos (valorização do ser humano, da sociedade e do bem-comum) e o psyché logos (a vida psíquica e a satisfação das necessidades individuais e coletivas). Respeitando estes princípios a empresa será capaz de romper com os paradigmas doentios.

Desta forma, sociologia clínica busca mudar a sociedade construindo um mundo no qual a riqueza produzida seria consagrada a reduzir as desigualdades e erradicar a miséria; onde a exploração dos recursos não se esgote pela pilhagem, mas se conserve e se renove; uma sociedade construída para cada ser humano como cidadão, sujeito e ator nunca um alienado.

Neste novo mundo admirável o bem-estar seria mais precioso do que os bens e não haveria mais um mundo a gerenciar ou manipular, mas sim um mundo para amar e desfrutar, certamente, seria um mundo onde estaríamos orgulhosos de transmitir a nossos filhos.

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