A ocupação mais antiga do mundo não é a que você sempre achou que fosse, amigo leitor. Por mais que se possa pensar que outras ocupações tenham surgido antes, a boa reflexão leva sempre à mesma resposta: A primeira disciplina dominada pelo homem, que com ele nasce e de certa forma o define, é a Técnica.

Sim, caro leitor, descendemos de grandes técnicos, de um tempo no qual não haviam cursos técnicos, profissionalizantes ou graduações, mas existiam (como sempre existiu e existirá) necessidades. No entanto, esses pioneiros careciam de algo que seria desenvolvido por seus descendentes: Aprimoração, o princípio básico para se desenvolver uma técnica, seja por competência ou por dom.

Um aprimoramento técnico revolucionário, sempre muda a História da humanidade. O Paleolítico (período dos homens das cavernas e suas pedras lascadas) é marcado pela invenção de utensílios  e ferramentas, assim como o fim da pré-História ocorre com a invenção da ‘técnica’ da escrita.

Mas esta história aqui, prezado leitor, é a história de como surgiram os dois principais desdobramentos do raciocínio e da inteligência humanos. A história da técnica e da tecnologia, e de como uma surge através da outra. BEM VINDO: A “história não contada” de como a técnica virou tecnologia e mudou tudo!

QUANDO SURGIU A TÉCNICA?

Milton Vargas em seu livro “Para uma filosofia da tecnologia” afirma algo esclarecedor sobre o nascimento da técnica:

“…Todas as técnicas tiveram origem mágica. Desde o arado que penetrava a mãe terra para fecundá-la e que, portanto, tinha a forma de um falo, até a medicina grega originária do deus Asclépio – que curava os doentes durante o seu sono – passando pela forjaria e a tempera dos aços das espadas árabes – em que os cavaleiros arrebatavam as espadas das forjas, e as temperavam e brandiam-nas contra o vento combatendo espíritos. … A transmissão dos conhecimentos técnicos de geração a geração foi também inicialmente feita como segredos revelados pelos deuses e, portanto, a uma corporação.”

Podemos dizer que a técnica é tão antiga quanto a sabedoria. Em todas as épocas, é a técnica que determina o grau de desenvolvimento de uma sociedade. Sendo que para analisar a técnica e os instrumentos por ela desenvolvidos, quando se trata do ser humano, nunca podemos nos distanciar das relações sociais, políticas e econômicas em cada fase da História onde a técnica foi utilizada.

No princípio, dizem as antigas escrituras, era O Verbo. Tal frase possui grande significado, para além da religião ou do misticismo. Pois deixa claro que, antes de mais nada, o ser humano, racional e inteligente se descobre num mundo onde é obrigado a agir para sobreviver e melhorar sua condição.

As intempéries parecem manifestações sobrenaturais, porém, a partir da constatação de sua condição de ser dotado de razão, o homem começa a interpretar o mundo ao seu redor, e, ultrapassando todas as outras criaturas, engendra uma relação transformadora com o ambiente ao seu redor, em escala jamais vista. Desta forma, vemos que a técnica advém do próprio agir das pessoas frente ao mundo e seus desafios.

A TÉCNICA ADVÉM DO PRÓPRIO AGIR DAS PESSOAS FRENTE AO MUNDO E SEUS DESAFIOS!

Isso se dá pelo simples fato de que o homem, ao perceber-se humano, percebe-se também como intérprete da natureza e protagonista da solução para as necessidades que se apresentam na relação com o ambiente. A partir daí, surge a técnica. E esta passa a se desdobrar, alcançando muitas especificidades e usos entre as pessoas.

Estes usos, ou manejos, traduzem-se em conhecimentos capazes de gerar inventos, com intuito de facilitar um determinado trabalho. Com uma infinidade de objetivos presentes em um mundo imenso e inexplorado, a técnica se diversifica, e evolui com o homem, através de suas relações sociais e experiências colaborativas, gerando um acúmulo de conhecimento acerca das formas de trabalho e resolução de problemas. Eis a técnica, aliada primordial da humanidade.

No dicionário de filosofia de Abbagnano, a definição de técnica aparece como sendo o conjunto de regras aptas a dirigir eficazmente uma atividade qualquer.

Contudo, o leitor mais atento notará que não somos apenas nós, as pessoas, que se utilizam da técnica ou de um instrumento para viver. Um corvo que se serve de um graveto para apanhar uma larva, a lontra que quebra conchas rígidas batendo-as contra pedras, a orca que cuidadosamente retira os seixos da praia para melhor lançar-se sobre a colônia de focas, a construção de um formigueiro ou de uma colmeia de abelhas…

Exemplos de técnica? Sem dúvida alguma. Entretanto, ainda que observemos até mesmo a junção de técnicas a fim de atingir um objetivo entre os animais, há algo que nos difere deles, fundamentalmente. A essa centelha exclusivamente humana, que primeiramente foi chamada de technè, ou como os romanos traduziram ars e que (sim) tem total relação com a palavra arte, artesão ou artífice, mas para evitar complicar e facilitar explicar a relação entre a técnica e a tecnologia, chamaremos apenas de technè.

TECHNÈ

A “história não contada” neste enredo sobre como a Técnica começou a se transformar em Tecnologia, normalmente, é a “história não contada” da boa e velha Technè.

Na Idade Antiga, os sofistas foram acusados por Platão de não serem filósofos por usarem (apenas) da techné, ao invés da epistemè. A technè não é ainda um conhecimento cientifico-filosófico, talvez nem seja um “conhecimento”, seria (simplesmente) uma “prática”, uma habilidade ou um artifício, talvez um dos melhores usos para o termo “artifício” aliás.

Podemos dizer que a technè é um “conhecimento prático” mas não é uma ciência nem mesmo filosofia. No entanto, um prático pode até ter um ‘conhecimento empírico’ de uma ação que serve ao homem e nisso ele pode inclusive “vender seus serviços” como os sofistas faziam e ensinavam outros a fazer.

Mas ciência, filosofia e, por sua vez, a tecnologia pressupõem um conhecimento elaborado e acumulativo. Desta forma, o que diferencia uma ‘técnica rudimentar’ de um ‘homem das cavernas e suas pedras lascadas’ do ‘homem grego (inventor do conceito de civilização)’ foi, acima de tudo, a utilização, aprimoramento e desenvolvimento da technè.

Trocando em miúdos a technè é uma competência que inclusive é ensinada, desenvolvida e assim multiplicada. Um dado interessante sobre a technè é que muitas delas passaram de geração em geração através da educação e por ser descrita em livros como, por exemplo, os tratados de medicina de Hipócrates e os de arquitetura de Vitrúvio.

A burguesia no final da Idade Média foi capaz de derrubar o Antigo Regime, principalmente, pelo acesso aos textos gregos e romanos das technès que eram úteis como ocupação, profissão e sustento. Nesta época para se fabricar um calçado, um artesão precisaria de vários dias para concluir todas as etapas de execução da sua produção mas isso mudaria com a ‘tecnologia’.

TECNOLOGIA

Podemos dizer que na Idade Moderna é quando a técnica se desenvolve a ponto de ser denominada como ciência e tecnologia. O Grande Racionalismo do século XVII já nos traz muito da ciência e tecnologia que pode ser vista em cada canto atualmente.

 Tudo o que lhe cerca nesse exato momento, leitor, é fruto da tecnologia. Seu smartphone, a rede social na qual você investe seu tempo com aprendizado e entretenimento, o notebook, a fibra ótica que leva os dados da rede mundial de computadores, sua caneca de café. E para além de seu cotidiano, todo o conjunto de conhecimentos, pesquisas e o arsenal de tecnologias da sociedade contemporânea é resultado da tecnologia.

Ou, mais precisamente, da transformação da técnica para tecnologia. Pois a tecnologia, mola propulsora da humanidade, nada mais é que a técnica evoluída, ou, em outras palavras, da junção de diversas técnicas para criar soluções para problemas cada vez mais complexos.

A tecnologia mudou tudo e hoje está mais presente que nunca, principalmente após 1970, início da terceira Revolução Industrial, quando o conhecimento científico e a pesquisa deram um salto gigantesco. Nesta época a Nike virou a principal marca de calçado esportivo e hoje enfrenta a quarta revolução industrial, com os paradigmas da manufatura avançada e indústria 4.0, vendo a Adidas automatizar todo seu processo visando sustentabilidade.

Artesões -como os da Idade Média fabricando calçados- estão quase em extinção, daqui a pouco teremos um aplicativo para fotografar os pés e imprimir o próprio tênis em uma impressora 3D. Ou seja, os avanços tecnológicos têm como objetivo facilitar a vida dos seres humanos, e quando falamos sobre isso, é inevitável que tenhamos que falar sobre indústria e produtividade. E, mais especificamente, sobre oportunidades e necessidades.

O agricultor primitivo, que rasga a terra em sulcos com um bastão é o inventor da técnica. O gênio que projeta o arado é seu herdeiro, produtor de tecnologia, por excelência. Assim, o fruto de ideias oriundas do passado que ao longo dos anos foram sendo modificadas e aprimoradas, é o que chamamos tecnologia, e faz parte de um ciclo que começa com o alvorecer do homo sapiens, e só terminará quando não houver mais nenhum de nós na superfície do planeta.

A MD Training deve, como todos, muito a estes dois conceitos, principalmente por fazer parte dessa história de evolução, e também por estuda-la a fundo para partilhar o conhecimento com quem mais precisa dele: Você!

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