Abra um caderno de economia de um grande jornal qualquer, ou procure pelas matérias da área econômica em um portal virtual. Você verá, salvo raras ressalvas, diversas manchetes sobre automação e desemprego. E, não demora, perceberá que quase todas elas profetizam um futuro sombrio para o trabalhador, que – de acordo com esses “profetas” – será prontamente substituído por máquinas.

“Os robôs irão roubar nossos empregos!” A frase agourenta já pode ser ouvida ao redor do mundo, e cada vez mais provoca temor. Mas será esse um temor legítimo, ou somente uma incompreensão do livre mercado?

É preciso, antes de mais nada, ter em mente que existem duas maneiras de pensar a questão. A primeira trabalha com o curto prazo. E, sentimos dizer, pra quem pensa no imediato, a automação, a robótica e a inteligência artificial são geradores de escassez. Geram deslocamento de empregos, perda do poder aquisitivo pra as classes trabalhadoras, e, em última análise, crise, seja ela social ou financeira.

Porém, como se sabe, nossa espécie é adaptável, e venceu muitos desafios maiores. E passará por mais esse, desde que possamos compreender como transformar escassez em abundância. E se, principalmente, formos capazes de pensar em longo prazo e adquirir o hábito de olhar para todos os lados antes de avançar (inclusive para trás). Que tal pensarmos na automação como um todo, e não apenas em seu viés contemporâneo?

Alguém por acaso se lembra do velho Ludd e sua sanha contra as máquinas? É bom lembrar. E melhor ainda é recordar o fato de que Ludd e seus seguidores não conseguiram deter a implantação das linhas de produção. E nem de que estas, ao invés de destruir as vidas dos trabalhadores, as melhoraram sensivelmente. Ou seja, o uso da automação funciona basicamente da mesma maneira que os avanços tecnológicos de épocas passadas, sendo que até no passado recente existiram avanços tecnológicos que se tornaram obsoletos ou deixaram de existir (em alguns casos) em menos de uma geração. Se você nasceu na década de 70, 80, (ou antes) muitas tecnologias ditas“avançadas” que você utilizou não persistiram para que seus filhos e netos chegassem a vivenciá-las. Mas certamente achou que Walkman, Videocassetes, Disquetes, Pagers e Filmadoras eram tecnologias avançadas.

Os avanços tecnológicos estão em constante mudança e devem sempre melhorar, e não piorar a qualidade de vida de bilhões de pessoas. Assim, podemos dizer que a automação pode ser o primeiro passo para a criação de novos e impensáveis postos de trabalho. E todos eles ligados à grande vedete desta e de todas as eras da humanidade: a inovação.

Em um mercado movido pelo capital, o avanço tecnológico é parte essencial do paradigma, uma vez que o crescimento consiste na geração de valor obtida pelo menor custo possível. Condição exigida por você mesmo como consumidor. Ora, diminuir custos a partir de métodos já existentes é, no mínimo, difícil. Daí, a ação dos inovadores, daqueles que criam novas tecnologias e processos para gerar mais valor a custos menores, se torna indispensável.

Mas onde estarão as multidões de vanguardistas necessários para erguer e manter um novo paradigma? A resposta é tão simples quanto reconfortante: esses intrépidos empreendedores já estão por aí. E trabalhando em empregos que podem facilmente ser tornados obsoletos com a sofisticação da automação. Eles estão lá apenas esperando pela escassez.

Esperando pela escassez? Sim. Na verdade, sem eufemismos, esperando pela perda de seus empregos. Empregos que, como diversas tarefas manuais mecânicas não existem mais. Ou melhor, existem, mas em indústrias obsoletas que remuneram mal e não oferecem qualidade de vida ao trabalhador, pois na grande parte das atividades operacionais modernas, o dia a dia está mais relacionado a programar as máquinas que realizam as tarefas operacionais e monitorar os sistemas que evidenciam os indicadores e os parâmetros de regulagem das máquinas. Máquinas mais rápidas, mais baratas e mais produtivas que os seres humanos que as antecederam. Máquinas projetadas, mantidas e operadas por seres humanos que tiveram a oportunidade de deixar tarefas maçantes de lado, e se dedicar à criação de novas tecnologias e diretrizes para utilizá-las. Homens e mulheres que deixaram de ser tratados como“peças de uma engrenagem” para projetar máquinas, desenvolver novos sistemas e passaram a exercer funções menos operacionais e mais estratégicas além de receber a remuneração merecedora pra quem se capacitou.

Comparado a humanos, robôs são menos custosos para ser empregado — em parte por razões naturais, em parte por causa das crescentes regulamentações tributações governamentais e por direitos exigidos por você mesmo como empregado. Robôs não precisam ser treinados, já “nascem” programados. Não necessitam de equipamentos de segurança, nem treinamento para situações de risco. Não recebem salário mínimo, não geram encargos (ainda). Por isso, cada vez mais economistas, políticos e trabalhadores que procuram entender o tema da automação como um gerador de escassez ou abundância se convencem de que os robôs e a inteligência artificial não irão destruir os empregos. Esses especialistas e profissionais, bem informados e conhecedores da história sabem que escassez, nesse caso, gera abundância. A crescente automatização dos processos e a substituição da mão de obra humana são favoráveis à criação de novos empregos. E o motivo é muito simples: Criação de empregos é sinônimo de avanço tecnológico.

A automação, portanto, gera abundância através da escassez. Houve épocas nas quais o trabalho rural era uma obrigação de todos os seres humanos. Imagine a reação desses primeiros agricultores quando um deles finalmente descobriu o conceito da foice, do arado e de outras ferramentas simples – mas geniais – que acabaram por ser o primeiro passo para que pudéssemos criar entornos urbanos que trouxeram consigo uma infinidade de novas necessidades e consequentes novas funções que as suprissem. Provavelmente, essa reação foi bem parecida com a dos “profetas” de hoje em dia, que insistem em bradar “os robôs tomarão nossos empregos!”

A massificação da automação será como a descoberta do arado: Ela até pode tornar muitos empregos obsoletos. Mas também gerará novos trabalhos, assim como o automóvel (que destruiu empregos no setor de carroças e criação de cavalos, mas gerou muitos mais nas linhas de montagem automotivas), o computador (que gerou tantas novas funções que seria impossível enumerar todas), a luz elétrica, etc.

O automóvel, o computador, a luz elétrica, a internet e a mecanização da agricultura tornaram várias formas de emprego totalmente obsoletas. Não obstante, isso não apenas não empurrou a humanidade para a pobreza endêmica e para a “fila do pão”, como ainda gerou a criação de maneiras totalmente novas de se ganhar a vida. A automação e a robotização prometem uma multiplicação de tudo isso. Pois os empregos não são finitos, mas são resultados de investimentos. E investimentos são oriundos do excedente, que só existe por conta do lucro. Lucro esse que aumenta sensivelmente com a automação e a robótica (ou pelo menos dá mais fôlego financeiro para a empresa, contra balanceando com o aumento cada vez maior das cargas tributárias e as exigências do livre mercado em redução do preço final – onde o trabalhador também está, ou seja, no papel do consumidor).

Maior mecanização e menores turnos de trabalho podem parecer trágicos, mas a era “pós trabalho” chegou, e a automação gerará a escassez (de horas trabalhadas e expedientes longos, de trabalhadores tratados como máquina e dispostos a serem tratados assim) necessária pra que trabalhadores combativos e exigentes estimulem desenvolvimentos tecnológicos que promovem a abundância.

Até mesmo quando se trata de abundância é preciso ter conhecimento das transformações para aproveitar ao máximo as oportunidades. Um personagem real interessante que ilustra isso é Tales de Mileto. Tales foi astrônomo, matemático e filósofo. Considerado primordialmente por Aristóteles (e consequentemente por toda tradição do pensamento ocidental) como o primeiro filósofo europeu, também é considerado um dos primeiros engenheiros e homem de negócios bem sucedidos da antiguidade que se tem noticias. O ponto de partida da teoria especulativa de Tales foi a verificação da permanente transformação das coisas umas nas outras e sua intuição básica é de que todas as coisas são uma só coisa fundamental, ou um só princípio (arché, ἀρχή). Daí o seu célebre aforisma “Tudo é Um”. Usando seu conhecimento astronômico e meteorológico, Tales também previu uma excelente colheita de azeitonas com um ano de antecedência. Sendo um homem prático, conseguiu dinheiro para alugar todas as prensas de azeite de oliva da região e, quando chegou o verão, os produtores de azeite tiveram que pagar a ele pelo uso das prensas, o que o levou a ganhar uma grande fortuna com esse negócio.

Contudo, ninguém nasce com as competências para inovar já desenvolvidas ainda mais dentro de um paradigma que costumava ver com maus olhos a independência e a capacidade crítica dos trabalhadores. Por isso, é preciso desenvolver as competências (conhecimentos, habilidades e atitudes) além de estimular a consciência, e a conscientização, compreendendo que assim como o mercado e a tecnologia, o trabalhador é uma entidade em constante evolução e mudança:

Façamos uma breve reflexão do tripé “Mercado / Tecnologia / Trabalhador” envolvendo você, leitor como único eixo central. Como constituinte do mercado, pede menor preço com mais benefícios. Na tecnologia, como empregado é obrigado a alcançar metas de redução de custo através dela para atender essa exigência do mercado do qual você mesmo faz parte. Assim, o trabalhador tem que capacitar-se através de treinamentos, refinar a cognição a partir de leituras, procurar compreender melhor a si e ao entorno são fatores chave para trabalhadores que querem ter sucesso na era do “pós trabalho”. Expandir mentes e horizontes é o nome do jogo.

É hora de dizer “olá” para o maior motor de inovação e criação de empregos que a humanidade já viu. Quem diria que ele seria justamente o “fantasma” da automação? (link para o texto Indústria x PIB)