PARTE 1

“O mundo está cada vez pior”, exclamava logo cedo, na padaria, um senhor que tentava achar 5 reais para pagar seu café e um jornal de pequena tiragem com notícias sobre violência urbana, catástrofes ambientais e que agora acrescentava também notícias sobre a política e seus crimes. Ao seu lado um rapaz perguntou ao senhor que lia o jornal: “Neste jornal aparecem as ações que mais geraram lucro aos investidores neste último mês?”

O senhor não pareceu que iria responder, porém mal achou sua nota de 5 para bancar a conta, se virou para o rapaz. Achando ter encontrado, na verdade, alguém para conversar e ler o seu jornal seguiu lendo em voz alta o jornal: “Por todos os lados a ação do homem é sentida com o pesar da degradação: fome, variações climáticas capazes de destruir cidades inteiras, terrorismo e aumento do consumo do crack nos centros urbanos, tudo parece evidenciar um presente sombrio e o um futuro incerto. Mesmo as políticas e diretrizes para melhorar a qualidade de vida das pessoas, que são realizadas em diversas frentes, todas elas somadas, ainda parecem não ter força suficiente para eliminar a desigualdade de oportunidades e a ação desonesta, inclusive daqueles que deveriam agir contra a permanência das práticas nocivas.”

Quando parecia que o papo ficaria pouco interessante, o senhor arrematou dizendo: “Tudo que o jornal fala sobre economia hoje é sobre o preço do dólar, acompanhado da a frase: ‘Apesar dos parcos sinais de recuperação da economia, a crise parece não ter fim e quer se alongar’ Triste meu rapaz, nada falando sobre a bolsa ou lucro em ações…Eu poderia dar minha opinião não-técnica sobre ações que geram lucro mas não sei muito sobre como melhoria a economia, ainda mais no meio dessa crise…”

O rapaz que ouvia a leitura do jornal, parecia ser um estudioso dos assuntos econômicos, e comentou a fala com uma convicção que fez com que eu, que observava a cena com curiosidade, parasse pra ouvi-lo: “Essa crise, e todo o desemprego gerado nada mais são do que o mau uso do dinheiro público pelo governo, aliado a ganância dos bancos por lucro. Aumento de gastos públicos e expansão monetária de bancos é recessão na certa, assim como desemprego e queda no consumo são inseparáveis! O senhor é vivido e bem informado, há de concordar comigo, não!?”

O tal senhor deu um longo gole em seu café e pareceu ponderar tudo que leu e ouviu antes de responder dizendo: “Todos nós temos objetivos a alcançar em nossas vidas, desde os mais simples, como comprar um café na padaria, até os mais importantes, como a escolha da nossa profissão, que será a atividade que nos dará sustento. O lucro de um banco, em parte, é também o seu sustento que por vezes é o que gera emprego, ao financiar a empreitada de um empresário, não dá pra colocar uma causa única e direta e culpar os bancos da crise, recessão ou desemprego. Assim como alguns defenderam que gastos públicos podem ser o melhor antidoto numa crise de forte recessão. O incentivo econômico proveniente do poder público também pode impulsionar a economia e gerar empregos. Mas concordo que desemprego afeta o consumo e também quando você fala de mau uso do dinheiro público como sinônimo de toda ação do governo que ao invés de gerar lucro, gera prejuízo, serei obrigado a concordar contigo…

Satisfeito com os argumentos, o rapaz acena concordância principalmente para o início da fala do senhor que nesta hora dobrava o jornal sobre o balcão para ouvir o rapaz dizer: “Não vou comentar nada sobre o governo. Mas vamos falar então sobre ações que geram lucro. Concordo com a ideia de que nós buscamos objetivos em nossas vidas e isso seja nossa forma de obter lucro; assim como para o banco o lucro é apenas o juros pago por usar o dinheiro de um para emprestar para outro. Porém, de todos os crimes que existem, a ação dos bancos é o crime mais organizado e perfeito de todos, eles recebem nosso dinheiro e cobram uma taxa por isso, usam nosso dinheiro para lucrar de tal forma que, dependendo da quantia que você queira sacar (de um dinheiro que é seu), você ainda terá que pedir permissão a eles e talvez até pagar uma taxa para sacar. Mas não vamos nos alongar nessa causa que você já desconsiderou. Apenas acho que o sistema financeiro perderá espaço na economia digital para o compartilhamento de crédito através de bancos digitais, empréstimos P2P e da recente “desbancarização”. Mas, vamos seguir nessa ideia de que temos objetivos para alcançar: Ações que geram lucro! O que mais o senhor poderia me dizer sobre isso com a sua experiência?

Este senhor era daqueles que gostava de ser chamado de senhor. E se lhe dessem ouvidos falava por horas, sobre qualquer tema, apenas lembrando e generalizando o que viu, leu ou ouviu contarem nessas conversas de balcão: “Bem, eu creio que para alcançar esses objetivos ou fins, todos nós dispomos de meios e passamos boa parte de nosso tempo de vida tentando descobrir a melhor maneira de utilizarmos esses meios para atingir nossos fins. A única certeza que tenho é que todas as ações são realizadas com a expectativa de que, caso sejam concretizadas, venham aumentar a satisfação das pessoas. Ninguém age para piorar, é isso o que quero dizer. Não consigo entender como ações que só deveriam gerar benefício e lucro entre as partes acabam causando prejuízo no todo.”

O rapaz quis dar sua opinião: “Talvez por que todas as ações que são realizadas também são decididas individualmente, na grande maioria das vezes, por intuição, ou por experiência, influenciadas principalmente pelo gosto, desejo e preferência pessoais e individuais. Escolhas pessoais, individuais e imediatistas que nem sempre estão relacionadas ao longo prazo, ao todo e ao coletivo. Seria necessário um plano de ação de caráter global que fomentasse a prosperidade de todos e não de apenas um grupo de herdeiros bem nascidos, espertalhões especuladores e geniais empreendedores que levam a maior fatia.”

O senhor até sorriu ironicamente: “Um plano-de-ação-de-caráter-global, vamos usar o da ONU e seus ‘17 objetivos de desenvolvimento sustentável’ que incluem a erradicação da pobreza, da fome, da violência e da desigualdade entre as nações”. Fez uma breve pausa para um gole seco em seu café e prosseguiu: “não me parece nada palpável quando comparamos com os fatos.” O jovem já dava ares de desesperança quando velho concluiu: “Não podemos ser tão pessimistas. Li diversas notícias boas neste jornal e se posso traçar um denominador comum de tudo, a tecnologia da internet tem feito ainda reviravoltas enormes na economia.”

Esse era um tema que o rapaz tinha mais domínio e, por isso, foi logo tomando as rédeas da conversa: “Certamente, poderíamos falar apenas da facilidade da comunicação e no acesso a informação e conhecimento em diversos assuntos, mas também me impressiona amplitude que a economia compartilhada trouxe de impacto. Apenas aqui neste balcão, enquanto aguardava pra comer, agendei uma hospedagem para próxima viagem, solicitei uma carona compartilhada para ir ao centro e consultei o tempo de percurso (em tempo real) e, antes de falar contigo, estava lendo uma notícia sobre uma empresa de transporte de encomendas. Vou ler pro senhor:

“Seu lucro caía constantemente, até que entendeu de que os tempos atuais eram uma nova economia com novos desafios. Lançou o My Ways e viu o negócio voltar a crescer. O My Ways é um aplicativo que permite enxugar completamente a estrutura de logística convencional. Caminhões e caminhoneiros? Dispensados, muito obrigado. Eu, pessoa comum, que tenho que fazer uma viagem a outra cidade e estou com o espaço de sobra no carro, posso me dispor a levar um pacote da DHL em troca de um dinheirinho extra. Eu já faria esse percurso mesmo, o que eu receber é lucro. Para a DHL, uma economia e tanto, pois se o aplicativo viralizar, pode enxugar o quadro e o ativo imobilizado. Para a sociedade em geral, uma economia gigantesca de recursos.”

A conversa dois duraria até o carro que levaria o rapaz ao centro chegar. Enquanto eu me afastava ainda deu pra ouvir o rapaz comentar de uma entrevista de Alvin Toffler para uma revista aqui do Brasil, onde ele disse: “a única esperança de escapar da miséria é habilitar as pessoas para que elas produzam mais, e isso só vai acontecer com a difusão do conhecimento. Este é o plano. Você precisa ser capaz de aplicar em atividades econômicas métodos inovadores e que aumentem a produtividade.”

Dali rumei para casa, pensando seriamente sobre coisas que muitos, inclusive eu mesmo, considerariam indizíveis.  Me recordei dos meus tempos de universidade, quando eu era um inocente admirador de Jean Jacques Rousseau. Um idealista. Tive muitas conversas como a que o rapaz e o senhor travaram, muitas delas com pessoas de excelentes intenções, que defendiam pontos como os tais ODS’s que o senhor ironicamente citou. Rumei para a casa, e lá segui minha rotina, até me lembrar que eu tinha um prazo a cumprir, e um texto a elaborar, que resolvi chamar de “ações que geram lucro”. Sim exatamente esse texto, que você lê agora, pra ser mais exato.

Queria escrever uma parábola mas me lembrei da conversa que havia ouvido, e decido escreve-la, pensando em, ao final, amarrar tudo, e colocar os ODS’s como fechamento, ensinar aos empreendendores que seguir a cartilha da ONU é implementar ações que geram lucro. E assim eu pensava, pois isso agradaria de forma otimista quem nos lê. Seria simples de escrever, e provavelmente meus superiores iriam me elogiar por colocar mais um texto no trending. Mas, feliz ou infelizmente, existem espelhos em minha casa. E olhando para um deles, percebi que eu não podia ser um hipócrita. ODS’s… se existe algo que não é uma ação que gera lucro, são esses objetivos. Pois eles são uma hipocrisia. Mudei, naquele momento, o rumo do texto.