Penso que o lucro não é apenas uma fórmula, um conceito financeiro. Penso que nosso planeta está sob ameaça, e que essa ameaça parte muito mais dos que fingem propor soluções, que dos predadores que identificamos fácil, especuladores, concentradores de renda, extrativistas sem escrúpulos. Esses últimos, não usam máscaras. Penso que a hipocrisia de propor soluções que obviamente não atacam diretamente as causas, mas apelam a uma elite – que não tem compromisso – com o bem estar social – para que mude sua forma de operar seus negócios, é no mínimo inócua, e muito provavelmente descomprometida com iniciativas reais. De 1990, época na qual eu era uma criança pequena, até o momento, houve mais de 10 conferências mundiais que visavam solucionar o problema do ‘crescimento econômico versus miséria’, oriundo da própria natureza do sistema no qual estamos inseridos. De revolucionário, não se viu nada.

Louvamos a máquina, desde que se iniciou a revolução industrial, a primeira, que antecedeu em muito essa quarta que agora vivemos. Me pergunto o que há de tão revolucionário nisso também. Passamos os dias a afirmar que precisamos medir, controlar, otimizar, gerir… mas não dizemos, nunca, onde queremos chegar. A excelência se tornou uma palavra bonita e vazia. Os criadores do conceito, antigos filósofos que associavam a excelência, acima de tudo, com a felicidade, a prosperidade e o bem estar, estariam decepcionados. Pensamos a máquina para libertar o homem, e agora o tornamos escravo de uma máquina maior que todas as outras, que pensa apenas em se perpetuar, ao custo do bem estar dos que ela deveria servir.

Falo do sistema econômico, do mercado, de suas falsas (pois nada naturais, e sim bem pensadas pelos donos do jogo) flutuações de humor. Produzimos riqueza em montantes estratosféricos, mas essa riqueza (mais que suficiente para manter todos os humanos vivendo confortavelmente), é destinada tão somente à geração de mais riqueza. Os que se arvoram nesse objetivo são ditos grandes homens, executivos, investidores, gestores… Nada mais são que escravos, também, como é escravo o mais miserável camponês, o mais obscuro tecelão curvado em um porão qualquer, dentre os tantos que há na vasta terra. A diferença se dá na forma de escravidão, e na natureza dos grilhões, mas não além disso. Esquecemos o próximo e vivemos para um outro que nem sequer existe, permeados e perpassados pelo medo que motiva conversas – inúteis – como a que narramos na Parte 1 deste texto.

A evolução acha sempre seu caminho para evoluir assim como a revolução deve vir, pois ela é necessária, é preciso que sejamos livres e a bandeira revolucionária não importa, desde que ela simbolize aquilo de que tanto carecemos: ações que geram lucro.

A essa altura, a pergunta na mente do leitor é bem clara, ele se pergunta de que diabos eu estou falando, se revolta com minha escrita panfletária, se indaga o que faz um louco, um sonhador, em um espaço que deveria ser voltado para a prática. Não posso falar sobre a prática, sobre o alcance da excelência, sobre como lucrar, como implementar melhores sistemas, sem falar sobre a necessidade que há por trás dessas sugestões imperativas: melhorar a vida real de pessoas reais (que não alimentadas pela ONU). Todos somos pessoas, desde o operador de chão de fábrica até o mais imponente bilionário. Nossas vidas, todas, importam, e precisam ser melhoradas.

E temos meios para isso. Muitos e variados, que não são utilizados por egoísmo, preguiça, protecionismo… Leio sobre a mineração na África e o custo em vidas humanas para produzir um celular. Leio sobre a crise energética e a necessidade de construir hidrelétricas que condenam nações indígenas inteiras à morte com uma rede eólica produzindo sem ter como armazenar e distribuir. Leio sobre a insalubridade dos recicladores nas grandes cidades, e o problema do lixo. Leio sobre pessoas escravizadas para que possamos nos vestir. Vejo uma revista bem recente falando sobre ausência de saneamento básico e uma revista velha falando da crise hídrica. Leio, releio, e penso que a culpa que sentimos por isso, nem de longe, é tão grande quanto a que deveríamos sentir por tentar ajudar de modo estúpido e equivocado. Na culpa que deveríamos sentir por nos sentirmos culpados.

Mas se você se indagar sobre de quem é a culpa real, sobre quem nos faz sentir tão impotentes, miseráveis, culpados, tirânicos, a resposta pode te surpreender, e muito. A culpa não é só dos grandes predadores, dos inescrupulosos, dos maus. Ela é também dos pretensamente bons, dos que se apresentam como salvadores, dos que propõe acordos de redução de emissões de carbono, quando deveriam propor a abolição e proibição dos combustíveis fósseis, pra citar um exemplo.

Agora, antes que você se pergunte o que isso tudo tem a ver com ações que geram lucro, eu lhe respondo, leitor. Isso tem tudo a ver com a única ação possível pra se gerar lucro genuíno, lucro de fato, e não retroalimentação da miséria que gera riqueza para uns poucos. Essa ação é o investimento no sonho, a descoberta da tecnologia, e a recusa criativa ao arcaísmo. Portanto, a ÚNICA ação que gera lucro é aquela que visa colocar o ser humano em primeiro lugar, compreender a máquina como aliada e colocar a revolução em prática.

 A revolução industrial, a quarta, da qual tanto falamos, por enquanto está circunscrita a uns poucos, aos que a compreendem, freiam e se aproveitam do medo que ela gera para seguir com seus velhos e nada revolucionários hábitos. O futuro não é agora, o futuro não começou. Nós precisamos construir o futuro e alias o futuro nem existe, não ainda, por isso é o futuro. Mas o presente se esvai tão rápido e vira passado que não há como ter lucro amanhã, sem cuidar do hoje. Precisamos compreender que a única forma de lucrar é eliminar o prejuízo. De nada adianta haver lucro para alguns, e miséria para muitos. Essa estrutura de cobra que se autodevora precisa cessar.

Encerro com o óbvio ululante, mas sempre negado e jamais exaltado, do brilhante professor Hawking: “Se as máquinas produzirem tudo de que precisamos, o resultado vai depender de como as coisas são distribuídas. Todos podem desfrutar de uma vida de luxuoso lazer se a riqueza produzida pelas máquinas for compartilhada. Ou a maioria das pessoas pode acabar miseravelmente pobre se os donos das máquinas se posicionarem com sucesso contra a redistribuição da riqueza. Até agora, a tendência parece apontar para a segunda opção, com a tecnologia conduzindo para uma desigualdade cada vez maior” – Dr.Stephen Hawking