Não sei em que momento você está lendo este texto, mas se você olhar alguma notícia recente sobre economia, perceberá que a indústria produz cada vez mais bens de consumo, porém participa cada vez menos da geração de riqueza das nações.  Isso não é um paradoxo ou uma ironia, é um fato!

Muitos economistas acreditam que isto é excelente, apesar de haver também os que pedem incentivos e subsídios para o setor industrial ajudar o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto). 

Pode até parecer estranha e radical esta constatação, de que cada vez mais a participação na indústria vai diminuir na geração de riqueza, mas “contra fatos não há argumentos”.  Veja por exemplo o gráfico da crise da indústria no Brasil nas últimas décadas:

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Viu só?! A industrialização brasileira além de ser considerada tardia frente ao restante do mundo vem com um percentual decrescente na participação da geração de riqueza desde que eu nasci, em 83. Mas não é apenas aqui no Brasil que isso está acontecendo: o fenômeno se repete em países com uma indústria mais antiga, forte e competitiva que a brasileira.

Países europeus como Alemanha, Holanda e Finlândia ou mesmo Japão e EUA estão vendo cair cada vez mais a participação da indústria no PIB ao longo das últimas décadas:

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http://www.uschamberfoundation.org/blog/post/manufacturing-s-declining-share-gdp-global-phenomenon-and-it-s-something-celebrate/34261

Neste momento, você pode estar desempregado ou cada vez mais atarefado em sua função a fim de garantir a sua empregabilidade (dentro ou fora da indústria), mas o que você sente quando ouve a notícia de que a participação da indústria no PIB encolheu (e encolherá) novamente? Parece que a economia como um todo só tende a piorar, não é mesmo?

No entanto, vamos entender melhor o que isso representa e porque alguns economistas afirmam que isto até pode ser entendido como algo positivo.

De uma forma geral, o PIB (Produto Interno Produto) representa a totalidade da riqueza produzida pelas pessoas de um país.        

Também conhecido como PNB ou Produto Nacional Bruto, este indicador mede “o valor das mercadorias e serviços produzidos por um determinado pais”, mas segundo Alvin Toffler essa forma de medir tem falhas.

No bestseller “A Terceira Onda” o autor afirma que: “Do ponto de vista do PNB não importava se a produção era sob a forma de comida, educação e serviços de saúde ou munições. A contratação de uma equipe para construir ou demolir uma casa contribuía para o PNB, embora uma atividade se somasse ao estoque habitacional e a outra se subtraísse dele. (…) Apesar destas deficiências, os governos entraram numa corrida cega para aumentar o PNB a todo o custo, maximizando o “crescimento” mesmo com o risco do desastre ecológico e social. (…) A maximização acompanhou a padronização, a especialização e as outras regras industriais básicas.”

 Ou seja, a indústria de manufatura é uma fábrica que produz apenas produtos, ou seja, bens de consumo. E também não é o único setor da economia capaz de gerar emprego e produzir riqueza. Agronegócio, construção civil, serviços e comércio são exemplos de setores da economia capazes de gerar riqueza.

Além disso, quem produz riqueza na verdade, não são os “setores da economia”, mas sim as pessoas, pois é através do conhecimento e criatividade das pessoas que é possível “agregar valor ao cliente” e desta forma “produzir riqueza”.

Inclusive a melhor forma de produzir riqueza na indústria ocorre quando, satisfazendo o mercado cada vez mais exigente por produtos de qualidade com preços acessíveis, se obtém este resultado e ainda se reduz os custos de fabricação.

Diminuir os custos operacionais com este alcance, porém, muitas vezes implica em reestruturar os processos, eliminar funções ou mesmo instalar uma nova tecnologia que torna obsoleto o modo antigo de produzir.

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Assim, podemos dizer que as indústrias (mesmo aquelas que crescem) estarão contribuindo cada vez menos na geração de riqueza, o que também explica melhor o fato da indústria gerar cada vez mais bens e cada vez menos impactar no PIB. 

O papel da indústria na economia, portanto, é cada vez menor, inclusive porque aumentar a riqueza das pessoas gera mais demanda por serviços que serão cada vez mais digitais ou pessoais e menos ”manufaturados”. 

Até porque produtos manufaturados demandam recursos e energia nem sempre renováveis e geram resíduos que impactam no meio ambiente. Inclusive processos ditos sustentáveis geram produtos que um dia serão descartados. E, até que a reciclagem e a logística reversa se apliquem totalmente, a queda da produção industrial é (neste sentido) algo muito positivo.

Dito de outra forma, acredita-se que a diminuição da participação do setor industrial na formação de riqueza das nações é um fenômeno global, acelerado e irreversível, mas graças ao bom Deus, muito positivo!

A singularidade tecnológica da Quarta Revolução Industrial, também chamada de Manufatura Avançada ou apenas Indústria 4.0, poderá enfim substituir por completo o trabalho braçal, repetitivo e estressante, pois especialistas acreditam que em apenas algumas décadas as “Máquinas Inteligentes” ou mesmo a “Inteligência Artificial” substituirão a mão de obra operacional no chão de fábrica. 

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Pode ser que esta utopia nunca se concretize também, mas antes mesmo da década de 70, no longínquo século xx, já existiam registros de teorias sobre como seria a sociedade pós-industrial.

Estas teorias não só admitiam que a era industrial tinha chegado ao fim como também que os setores de serviços, entretenimento e informações estariam suplantando a indústria em faturamento, movimentação financeira e geração de emprego e renda.

Aliás, o desaparecimento da indústria estaria cada vez mais próximo no sentido de que o fim da era industrial também corresponde ao paradigma da indústria 4.0 onde a mão de obra sendo automatizada por completo eliminaria não apenas os postos de trabalho operacionais, mas todos possíveis. Opor-se a isso é praticamente tão inútil quanto se opor ao futuro.

A postura de se opor a inovação tecnológica, pois ela trará desemprego e substituirá mão-de-obra de pessoas parece reaparecer a cada novo ciclo de revolução industrial. Já na primeira das revoluções industriais, ocorrida no inicio do séc. XIX na Inglaterra, teve o seu primeiro movimento com este comportamento que mais tarde foi denominado de “ludista”

Ned Ludd era como os “ludistas” assinavam suas cartas, manifestos e proclamações. Aliás assinavam com títulos de Capitão, General e até Rei Ludd.  Ludd é um mito com várias descrições de sua origem; em 1811 o historiador John Blackner (de Nottingham) sugeriu, por exemplo, que os luditas eram um grupo que obteve seu nome depois de um jovem de Leicestershire, chamado Ludlam ter quebrado a máquina de tear onde trabalhava como aprendiz a marretadas após ser castigado por baixo desempenho. Outra curiosidade é que o próprio termo “sabotagem” vem de “sabot”, que é tamanco ou “sapato de madeira” em francês e diz respeito ao comportamento de operários que ao serem substituídos por máquinas atiravam seus sapatos no intuito de quebrá-las. 


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Ludistas destruindo maquinário de uma indústria têxtil por volta de 1810.

A melhor forma de sobrevivência é adaptar-se à realidade de sua era, ou seja, ao invés de tentar parar os avanços que o futuro nos traz é mais inteligente e seguro estar preparado para usufruir das oportunidades de nosso tempo.

Desta forma, a primeira coisa a se fazer é se situar no tempo e entender que estamos na era do conhecimento e a principal característica dos profissionais da era do conhecimento é o aprendizado constante a fim de estar sempre atualizado. Neste sentido o ideal é ser responsável pelo seu próprio desenvolvimento e realizar cursos e treinamentos que desenvolvem as competências necessárias na atualidade.

Algumas outras competências como ter domínio de idiomas e das novas tecnologias, além do desenvolvimento da inteligência emocional, pois é necessário trabalhar com pessoas (seja em equipe, na gestão ou mesmo no atendimento ao cliente), estão se tornando cada vez mais pré-requisitos. Algumas qualidades inatas também podem fazer o diferencial, como um perfil questionador, mas que propõe e executa soluções, e tambémo pensamento analítico e sistêmico, que atualmente precisa ser capaz de transformar informações em conhecimento e ter como aliados a coragem e a perseverança a fim de resolver as causas dos problemas.

Qualquer uma dessas competências são também necessárias aos empreendedores, e até por isso o empreendedorismo tornou-se um caminho para os profissionais da era do conhecimento.

Mas, seja você um empreendedor ou um colaborador em busca de recolocação ou manutenção do emprego dentro da industria é sempre necessário atuar com a “visão de dono do processo e do negócio”, ou seja,  ter capacidade de aumentar a eficiência, resolver problemas que impactam na lucratividade e inovar reduzindo custos. A inteligência, o pensamento estratégico, a capacidade de inovação e, sobretudo, a adaptabilidade, são o que realmente gera riqueza. Pessoas são melhor forma de aumentar o PIB!