Studio shot of young woman working in office covered with adhesive notes

A ordem do dia, do mês, do ano, da década, do século: Autodisciplina e autonegação, tendo em vista os resultados. Isto define o complexo comportamento para acumulação de capital e o trabalho duro, o qual acreditam ser o que realmente dignifica o homem.

Afinal, muitos irão dizer que se você não trabalha, então você vive as custas de quem trabalha e, além de vadio e vagabundo, é um acomodado que não está ajudando o progresso. Quem se comportar assim torna-se um maldito, literalmente!

Por sua vez, até o samba de Adoniran Barbosa Abrigo dos Vagabundos nos diz: “quem trabalha tudo pode conseguir.” Porém a “loucura” da rotina do trabalho e do “gerenciamento da vida” está cada vez mais indigna e maldita também.

Dejours já nos avisou que ‘trabalhar não é apenas produzir, implica necessariamente na transformação do eu’. E num período onde o trabalho é visto cada vez mais como a realização de um propósito, a edificação de uma obra, será mesmo que é o trabalho que dignifica o homem?

HABITUS E ROTINA “PRODUTIVA” (essa parte é chata e você já conhece, pode pular)

Vejamos: necessitamos de 8 horas de sono, 1 hora para cada refeição, algum tempo para o lazer e meia hora de exercício físico, todos os dias. A alimentação deve incluir frutas, legumes e verduras frescos. Sem isso, certamente o corpo adoece, a máquina falha, e sem cuidados, perece.

Nos grandes centros urbano, precisamos acordar com 3 horas de antecedência para chegar no de trabalho: 1 hora para as atividades diárias como café da manhã, banho e vestir-se e 2 horas a mais perdidas no intenso tráfego de veículos da metrópole.

No trabalho, aguardamos ansiosos pelo intervalo de almoço e ‘café’. No entanto, antes de comer é preciso pagar as contas, colocar os e-mails em dia, consolidar o networking entre os colegas de trabalho ou nas redes socias e etc.

Comer mesmo, isso se faz em 15 minutos. Findo o almoço, foca-se em terminar tudo até final do expediente, caso ocorra um milagre que impeça as horas extras para eliminar as pendencias ou a necessidade de garantir que vamos bater as metas.

Chegando ao lar, praticamente no fim da noite, engole-se o jantar diante da televisão, ou de algum outro dispositivo, seja tablet, smartphone ou seus congêneres. Não há tempo para conversas longas com a família. Todos estão em seus respectivos dispositivos mantendo contato com os amigos de todas épocas que estão cada vez mais bem sucedidos -ou assim parecem estar – e postando suas realizações e conquistas nas redes sociais.

Nessa hora o ser humano já está cansado demais para brincar com os filhos ou com seu animal de estimação. Afinal, a prioridade é alimentá-los e o sustento precisa ser tirado de uma fonte de renda que é sempre o trabalho.

Dorme-se. Isso se conseguir deixar que os pensamentos do dia atual (e do futuro) não lhe fazer perder o sono. Lembrando que o dia seguinte será duro. Igual ao anterior. Será assim todos os dias, até se aposentar. Se é que conseguirá aposentar-se com as atuais reformas. Contudo, é necessário poupar energia e recarregar as baterias para a rotina ‘produtiva’.

TRABALHAR É PRODUZIR?

Além da maratona diária, há outra preocupação: Produzir. Seja atendendo clientes, desenvolvendo tecnologia, ou mesmo suando no chão fabril, produzir é preciso! Pois é preciso que seu empregador tenha lucro, para pagar os salários e outras depesas. O lucro é o que faz as pessoas, a empresa e o país crescer. E crescer é o objetivo, custe o que custar.

Portanto, outro ser humano, o gestor (chefe/líder) também trabalha para garantir os recursos pra tudo funcionar na linha de produção, certificar-se de que todos chegaram no horário, cumprir prazos e metas  sempre no menor custo possível.

 O gestor é aquele que traça o planejamento, que é a partitura a ser lida por todos os que tocarão a sinfonia da efetividade, da pró atividade, da adesão à cultura corporativa, dos resultados crescentes através da busca pela excelência.  

Lembrando que o compositor não é o maestro. O maestro, ou gestor, apenas faz como faziam os musicistas menores, em tempos idos: Copia as modas mais em voga, e reproduz o gênio de outrem. Sem muito refletir sobre as razões, causas e consequencias da musica que toca.

O compositor é o mercado, o grande capital que compõe sinfonias perfeitamente ordenadas, feitas sob medida para o propósito “comum” de lucrar e crescer, mas não conhece o ser humano, e nem sabe sobre as dores e os prazeres desse anônimo “herói” que busca resultados e sucesso!

E a receita para resultado e sucesso no mundo corporativo é muito simples, todo gestor sabe que pessoas excelentes e processos excelentes geram resultados excelentes mas pessoas e processos ruins ou medianos geram resultados insatisfatórios e medíocres do ponto de vista gerencial. Ou seja, só há espaço para os melhores e excelentes, por tanto, infelizmente, no mundo corportivo quem está apenas ‘na média’, não passa.

OS FUNDAMENTOS (SEM FUNDAMENTOS) DA IDEOLOGIA GERENCIALISTA

De fato, há um enfoque de gerenciamento pelo qual todos acreditam e estão trazendo para a vida pessoal e profissional como um valor. Até a politica está contaminada pela ideologia gerencialista, e  sempre foi financiada por gestores atrás de mais facilidade para lucrar.

Mas como afirma Alain-Charles Martinet: “os gestionários são pessoas sérias e eficazes que, portanto, não têm tempo pra perder com qualquer reflexão epistemológica”. Apesar que isto está mudando, milhares de pessoas semanalmente lêem os textos desse blog por exemplo.

Aqui evidenciamos a ideologia gerencialista, ou seja, a gestão como ideologia pois queremos evidenciar os padrões, técnicas, metodologias e, principalmente, a comunicação da ideia positiva da gestão (como capaz de resolver todos os problemas, otimizar tudo e garantir riqueza e resultados) determinou uma visão de mundo e um sistema de crenças que nos colocou dentro de uma “corrida de ratos” atrás de dinheiro, sucesso e fama que está nos deixando doentes.

Um paradoxo dos mais terríveis, já que gente doente não tem tempo para obter dinheiro, sucesso e fama. Para o corpo e a mente doentes, sucesso é a cura?  Como almejar a saúde, ou a cura da doença, em um ambiente ultra competitivo, onde vivemos flertando com o perigo da LER (lesão por esforço repetitivo), da Ansiedade, da Depressão, da pressão alta e até de câncer, que pesquisas recentes também estão evidenciando como resultados desta ideologia gerencialista?  

O trabalho dignifica o homem ou a dignidade humana é algo intrínseco, e que vem sendo cada vez mais dilapidado pelo conceito de “trabalho”, que vai além da simples obtenção de sustento e conforto, mas torna-se um monólito inabalável, um dogma fundamental da fé contemporânea, que substituiu a divindade tradicional por algo mais de acordo com o modelo atual de ‘cidadão bem-sucedido’?

Mesmo doente, o gestor enxergou que pode ser muito mais lucrativo “valorizando o ser humano”. Pode ser muito mais vantajoso para o próprio mercado que sejamos íntegros, ou seja inteiros, integralmente humanos- e não apenas mão de obra produtiva/consumidora.

 Aliás enquanto a engenharia se torna cada vez menos mecânica e cada vez mais social. Foi focando no SER humano que vimos o burocrático e operacional ‘Departamento Pessoal’ virar o tático ‘Recursos Humanos’ e agora se transformar em Gestão Estratégica de Pessoas, gerencial e estratégico e porque não dizer lucrativo.

Todavia, a Sociologia Clínica de Enriquez foi capaz de ver que “quando o mito triunfa, os indivíduos desaparecem, outro pensador da mesma área é Gaulejac que ao analisar a condição do gestor percebeu que (grifos nossos):

“A fraqueza, o erro, o contratempo, a imperfeição, a dúvida e tudo aquilo que caracteriza o ser humano ‘normal’, não tem mais lugar de ser. A gestão preconiza o ideal em um mundo sem contradição. O ideal não é mais um horizonte a atingir, mas uma norma a aplicar.”

 

Dez anos atrás, mais precisamente, em maio de 2007 a Revista Época publicou uma pesquisa de Tagure que entrevistou mais de 1000 pessoas em mais de 350 empresas. Eram 263 presidentes, vice-presidentes, e diretores além de 965 executivos de alto escalão.

O resultado desta pesquisa foi surpreendente: 84% deles afirmavam estar infelizes, 76% acessavam o e-mail profissional fora do expediente e trabalhavam mais de 14 horas por dia, não à toa 58% achavam que o cônjuge estava também descontente com o ‘excesso de trabalho’.

Precisa dizer mais alguma coisa?

 

Bibliografia utilizada e recomendada:

DEJOURS, C. (1992). A loucura do trabalho: estudos de psicopatologia do trabalho. 5 ed. São Paulo: Cortez – Aboré.

GAULEJAC, Vincent de. Gestão como Doença Social: ideologia, poder gerencialista e fragmentação social. Aparecida, SP: Ed. Idéias e Letras, 2007.

Agradecemos especialmente ao trabalho do Mestre PAULO JOSÉ DA SILVA FONSECA, Psicológo e Consultor Organizacional que pesquisou PRAZER-SOFRIMENTO E ESTRATÉGIAS DEFENSIVAS NO TRABALHO DE LÍDERES DE UMA EMPRESA DO PÓLO INDUSTRIAL DE MANAUS. Este trabalho foi essencial para elaboração deste nosso artigo!